ANO: 24 | Nº: 6110

Fernando Risch

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Escritor
30/11/2018 Fernando Risch (Opinião)

Acabou a graça

É. Acabou a graça. O samba perdeu o ritmo, o palhaço saiu do circo, a grama não está mais verde e a burrice não ameaça. Não tem mais graça. Não tem graça falar o óbvio, não tem graça ser mais simplório. Deu. Acabou a graça.
 
Não agoure o que vem por aí, bufa o búfalo bufão esbaforido. Senão a culpa é sua. Ora, eu. O que de mim restou para agourar a tenda que se inflamou? É fato sim, o palhaço fugiu, queimou o circo, subiu o morro, desceu o bairro, entrou no botequim, na frente de todos, assim: serei rei, mugiu.

O búfalo bufão esbaforido aplaudiu, achando linda a nova era. Agora vai, ele gritou. Só não agoure, senão é sua, a culpa que nos afundou. E a coroa foi forjada, com aço de catana. E antes que metal tocasse pele, do penhasco caiu a casa, enquanto tirávamos uma pestana.
 
Veja o que você fez, grita o búfalo bufão esbaforido. O rei palhaço não tem culpa de seus feitiços de mau presságio. Você derrubou a casa, com o agouro que lançaste. Não tem teto, não tem chão, não tem nada, mais forte que vendaval. Vá se arrependa dos pecados, ou te poremos na fogueira, bruxo intelectual.
 
Que culpa eu, deus do óbvio, tenho em ser leviano? A verdade estampou-se na cara de todos; bebendo um trago, fazendo troça, expelindo amostras em sacos de excremento; enquanto nós, num amargo dia de choro, devemos sorrir para a aflição. Do copo, eu bebo um gole, para exilar-me da desgraça, para sentir, enfim na casca, a dor do cotidiano.
 
E a casa ruiu, num fundo de precipício. O chicote comeu solto, em lombos sem orifícios. Até que o búfalo bufão esbaforido percebesse, já era tarde demais. Sempre foi tarde demais. A graça acabou. Agora a coisa ficou séria. Tão séria que o riso morreu, num dobrar de esquina à direita; reto numa rua larga sem rumo, no extremo norte sem gargalhada nem rima.

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