ANO: 24 | Nº: 6110

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
01/12/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A brevidade da vida

A brevidade da vida é tema de pequeno tratado que Sêneca escreveu ao sogro, então ocupante de uma das mais importantes funções da burocracia imperial romana, tentando dissuadi-lo a abandonar a vida pública para afeiçoar-se ao ócio literário e ao estudo da filosofia.
Os mortais se queixam da maldade da natureza, argumenta ele, porque o espaço de tempo que lhes foi dado anda tão veloz e rápido, embora destinados a um instante de eternidade, de modo que a existência os abandona no meio dos preparativos para as alegrias da vida, o que também pensava Aristóteles ao lastimar a diferença entre o homem e os animais que foram abonados com sobrevivência por gerações.
Indiferente à beleza, à saúde, aos prazeres, à riqueza ou à reputação, mas adepto de uma conduta virtuosa, Sêneca proclama que a vida é suficientemente longa e foi dada para a realização das grandes obras e quando se torna transitória é que foi dissipada no esbanjamento dos haveres, sendo necessário fazer o cômputo do tempo de crédito, subtraindo os momentos de desgostos, de reprimendas, de perambulações estéreis, de doenças, para aferir o saldo do desgaste.
O tempo presente parece não existir, pois se movimenta, precipita-se, flui com celeridade, deixa de ser antes de vir a ser, é incapaz de deter-se e pertence aos ocupados, mas torna-se breve e lhes escapa exatamente por estarem em ação, dedicados à faina.
E conclui que o homem provecto que já fez sua parte, deve passar para outras ocupações, à maneira das vestais, que entre as tarefas alternadas ano a ano, aprendem a praticar ritos e assim que aprendem já passam a ensinar.
Como lembra Bobbio, após a inatividade se ingressa na fase da sabedoria, que faz olhar com muita indulgência para o próprio passado, não confiando demais no próprio e incerto futuro, e quanto ao presente é necessário subir pelas arquibancadas, aonde chegam cada vez menos nítidas as imagens dos atores e mais fracas as vozes da estrada.
É o mundo da memória, as recordações ajudando a percorrer de novo o caminho já feito, a idade revelará que a jornada não está cumprida, mas também não haverá tempo de sobra para muitos projetos, melhor incentivar a curiosidade do conhecimento e mudar qualquer obstinação.
São meditações que afloram quando se atravessa o vestíbulo da jubilação e se percebe que aumenta o contingente dos que se transformam em “senhores de idade”.

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