ANO: 24 | Nº: 6110

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
01/12/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Super Mário

O tempo passou, a ciência médica evoluiu muito, as inovações tecnológicas possibilitaram o exame detalhado das mais recônditas entranhas humanas e tudo isso, em princípio, foi feito visando melhorar a condição do paciente. Todavia, frequentemente, toda esta tecnologia parece mais atrapalhar do que ajudar. Hoje poucos são os médicos que se animam a dar um diagnóstico antes de condenar o paciente a uma maratona de exames invariavelmente desanimadora. Ficamos dias marcando exames, enfrentando filas, jejuando, madrugando, levando agulhaços, mantendo a bexiga cheia, coletando material, engolindo contrastes, enfim, abusando de nosso organismo justamente naquele momento em que o repouso poderia ser a terapia mais indicada. Fazemos tudo isso para agilizar o diagnóstico, porém, antes dele ainda temos que esperar alguns dias pelos resultados dos exames que, por vezes, demoram tanto que, quando chegam, a doença já foi embora.
Séculos depois, enfim, chega o aguardado dia do diagnóstico e... e... não raras vezes os exames não apontam nada e, diante das incertezas, ainda podemos ser brindados com o diagnóstico clássico de “virose”. Em tempos de remédios genéricos, não poderiam faltar doenças genéricas. Neste momento, a pergunta é inevitável: De que adianta tantos avanços, tanta variedade e tanta precisão nos exames?
Porém, nem sempre foi assim! Houve um tempo que os médicos tinham superpoderes, exatamente porque não existiam as supermáquinas que existem hoje. E um desses médicos tinha um consultório ali na esquina da Sete com a Dr. Veríssimo, em diagonal com a praça da Catedral. Doutor Mário Mansur tinha vários superpoderes. Assim como o Superman, o Super Mário tinha visão de raio-x. Radiografias eram dispensáveis, pois ele enxergava dentro da gente. Suas mãos eram como scanners de ultrassom que com um simples toque detectavam qualquer anormalidade nos nossos órgãos.
Mas o mais impressionante e exclusivo dos seus superpoderes era a sua memória que guardava o histórico de cada paciente, lembrava de todas as doenças que tiveram e era capaz de dar um diagnóstico só olhando para o semblante deles.
Atendia pobres e ricos, a domicílio ou no consultório, com a mesma atenção e simpatia. Era pediatra, mas também clínico geral e cuidou de mim por, no mínimo, quarenta anos. Às vezes, até eu me achava estranho no meio da criançada na sala de espera para consultar, mas nenhum médico me conhecia tanto quanto ele. Nunca errou um diagnóstico e por isso eu tinha confiança absoluta nele.
Chegar no consultório era uma experiência acolhedora. Éramos recepcionados pela sua simpática e atenciosa secretária que parecia ter saído das páginas da obra de Monteiro Lobato. Era a personificação da Tia Nastácia. A dúvida era saber quem era o mais simpático, se o Doutor Mário ou ela.
Nunca ouvi ninguém falar mal dele, nem como médico, nem como pessoa, nem mesmo sobre o seu hábito de fumar enquanto atendia a gente. Uma figura humana maravilhosa, dotada de uma paz de espírito transbordante e contagiante. Enfim, um anjo enviado e abençoado por Deus com uma vida longa dedicada quase que exclusivamente para só fazer o bem para todos aqueles que tiveram o privilégio de cruzar o seu caminho.
Não conheço mais médicos como ele e poucas são as pessoas boas como ele. Deus que me perdoe, mas gente como ele não podia morrer. De certa forma, o Super Mário não morrerá, pois fez tanto bem por tanto tempo para tanta gente que fica seu exemplo, fica a memória de todos que, como eu, lhe são eternamente gratos. Adeus Super Mário, obrigado por tudo! Descanse em paz!

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