ANO: 24 | Nº: 6110

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
06/12/2018 João L. Roschildt (Opinião)

A carta

Querido Joaquim. Respire. Respire fundo, pois quando tiver a capacidade de ler este texto talvez a realidade seja diferente. Atualmente, tenha noção de que alguns indivíduos menosprezam a sacralidade da vida.

Hoje em dia, sobram argumentos histéricos e irracionais que defendem o aborto; existem correntes antinatalistas que sustentam ser um erro trazer novos seres humanos ao mundo em razão das dores e sofrimentos presentes na existência humana; e não faltam reportagens e “estudos” anunciando que a felicidade de um casamento depende de não ter filhos. Também é noticiado que alguns pais se arrependem de ter tido filhos. Aliás, de acordo com “especialistas”, isso é mais comum do que se imagina. Essa é a norma individualista do nosso tempo: minhas vontades, minhas regras. Nada (nem ninguém) pode ousar “atrapalhar” isso.

Mesmo com todas essas insanidades coletivas, sorria para a vida, Joaquim. Inspire-se na leveza, alegria e inteligência de sua mãe, o amor da minha vida. Seja nobre de espírito para aceitar que nem todos possuem a dignidade de reconhecer os sacrifícios públicos que geraram as suas existências. Sinta orgulho de suas realizações sem abrir os portais da vaidade. Não permita que os louros das vitórias lhe conduzam a um mundo de ilusões e prazeres passageiros. Eternize-se pelos seus atos. Aja como se não houvesse amanhã, mesmo que hoje seja um dia qualquer. Tenha vivacidade no olhar.

Sofra com aquilo que vale a pena, mesmo que o tempo seja irônico o suficiente para mostrar o quanto estava equivocado. Não erre, mas entenda que irá errar. Incorreções, desacertos, trapalhadas e imprecisões farão parte do seu repertório pedagógico. Não há nada de anormal nisso, afinal, somos humanos. Mas perceba que as falhas são momentos que evitam deslizes futuros.

Preserve e nunca negocie os bons valores de seus avôs e avós. Trabalhe de forma árdua e com simplicidade. Além disso, encante-se pelo que é simples e aprenda com o que é requintado. E seja sincero, mas conscientize-se de que a verdade tem um preço elevado e nem todos a apreciam.

Nunca se esqueça de ter uma postura ereta diante das ameaças e fracassos. Se necessário, recue; afinal, a coragem só pode ser exercida no tempo certo. Desfrute do medo, mas nunca deixe que ele o domine. Refreie um possível pessimismo sem desdenhar desse termômetro da realidade. Mantenha o senso de humor, ainda que não possa expressá-lo.

Leia. Escreva. Sonhe. Experimente. Sinta. Pratique esportes. Contemple os detalhes da natureza, mas não espere qualquer retribuição a não ser a transcendência. Emocione-se com a beleza. Busque o seu melhor e ajude o próximo. Irrite-se, mas respeite o plano divino. Critique com educação. Saiba que o silêncio pode ser construtivo. Controle a si próprio sem a pretensão de dominar os que o cercam. Aprenda a obedecer antes de mandar.

Sorria com a alma, Joaquim. Tenha força, fé e concentração. Entenda que o verdadeiro conforto surge do esforço. E que os desconfortos são etapas necessárias para sabermos o que é a felicidade e com quem devemos compartilhá-la. Agradeça por cada oportunidade que a vida lhe oferte. Não reclame demasiadamente. Lembre-se que seres humanos não são perfeitos. Favoreça o pleno desenvolvimento de seus potenciais e cultive a bondade em seu coração. Seja bem-vindo ao mundo, meu filho.

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