ANO: 25 | Nº: 6281

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
08/12/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Escola de Datilografia

Assim como se embevece ante obra de pintor ou se extasia com sol que mergulha pálido no oceano, ainda surpreende a rapidez como alguém digita texto no computador; e às cegas.
Confesso, não frequentei nada quando adquiri a primeira máquina de escrever, fiquei a esmo, selecionando letras; batendo como se usasse dedal na polpa; mirando e corrigindo. Segui o costume paterno que, sendo protocolista da prefeitura, espancava apenas com dois dígitos os requerimentos de sua função. Era, como dizia, um dedógrafo.
Não vão longe os dias em que “escolas de datilografia” tinham matrículas disputadas, havendo até professores particulares para os mais abonados que precisassem enfrentar urgente aprendizado. Era raro alguém possuir um equipamento em casa, essa descoberta em que, acionando-se “ as teclas, movimentam-se os tipos que imprimem letras, números e símbolos dando agilidade ao processo de escrita”; e que funciona com o mesmo princípio da imprensa com linotipos.
Também essa arte de “conversar por meio de sinais feitos com os dedos” ou técnica de “escrever à máquina”, viveu momentos de glória aqui na cidade.
Então se destacavam dois cursos, o de dona Julieta Cazarré, situado na rua Marechal Deodoro, próximo à Praça de Desportos; e o “Remington”, de Walter Rosa, na rua Ismael Soares, lindeiro com a Praça da Estação, depois movido para a Galeria Kalil.
Quando se transitava, invejosamente, à frente de suas salas, era um tilintar de teclas, agradável sinfonia que sonorizava os ambientes, aonde os alunos pareciam ler pentagramas, sob a supervisão de maestros que, às vezes, chegavam para ordenar a de novo a percussão equivocada ou a posição da manopla. Aos estudantes distraídos se recolhiam as folhas pecaminosas, ao som do cilindro que as desenrolava, e se punham outras, alvas, como castigo, retomando a lição, ensinando que os minguinhos de cada mão deviam dialogar com o “p” ou “a” extremos (acertei?).
Falam que houve tempo em que mulheres não eram aceitas, pois as aulas eram reservadas aos varões que se preparavam para concurso público, atividade bancária ou escritórios dos advogados. E escolhidos entre os que tinham posição aprumada ao se assentar na banqueta sendo capazes de digitar “tantos toques” por minuto, verdadeira descarga de artilharia, geralmente condição imponente para ser aprovado.
Consumi perto de seis meses para concluir um livro de estreia, consultando compêndios de doutrina e jurisprudência, rasgando e substituindo páginas em que apertara tecla errada, trocando os carbonos.
Depois da máquina mecânica, melhorou-se com o apresto elétrico, um luxo. O comércio oferecia a Facit, Underwood, a pequena Lettera da Olivetti, que conservo e onde rabisquei os primeiros artigos. Que felicidade trouxe a IBM eletrônica, célere, esperta. E com fita corretiva, que maravilha! E com esfera de várias fontes de letras, outro sucesso! E logo os micros e os notebuques.
Indaga-se, hoje, se há romantismo em redigir no celular em que os dedos têm a mania de grafar mal as palavras, deixando em constrangimento indesculpável.
Silêncio de hoje que incentiva a criação ou o matraquear ruidoso do passado?
Oh, dúvida atroz.

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