ANO: 24 | Nº: 6184
12/12/2018 Luiz Coronel (Opinião)

Homo zapiens

1. O Homo zapiens
O Homo sapiens já era. Agora é a hora e a vez do Homo zapiens. A revolução tecnológica elegeu o dedo polegar como batuta da história. Zapeamos, digitamos e, assim, nos comunicamos em outros patamares, diversas velocidades, multiplicada ressonância espacial. A textualidade não agoniza. Apenas mudou de endereço. Trocou de chapéu. E quem diria, de repente, eu também virei um "zapeador". Respondo a dezenas de WhatsApps. Procuro organizar estes textos eletrônicos para um novo livro: O Homo zapiens. Vejamos algumas mensagens nascidas no ventre desse troca-troca eletrônico.
2. Prêmios e distinções
As entregas de prêmios, distinções anuais, são um copo d'água para a sede de destaque social. Chego e contemplo o exército de troféus e me assusto. Entrega de distinções batizadas por originalidade conheci apenas na celebração dos 200 anos de Bagé. Atores moviam-se em cena recitando textos graciosos: - Olhem ali, naquela cadeira, o Dr. Paulo Brossard, o homem que abalou o poder militar com seus retumbantes discursos. Venha cá, doutor, esta medalha é mais munição para sua oratória. Seria, ou não, um bom modelo a ser seguido, em respeito ao respeitável público?
3. O acaso
Sim, não bastasse o passado, com suas luzes e sombras, sua capacidade de remodelar os fatos, existe o futuro, sempre imperscrutável. Afora isso, e de improviso, ainda existe o acaso. Ele zomba da lógica, vira piruetas para os projetos, joga teus sapatos pela janela e corta as asas dos anjos.
4. As palavras
Pequeno, eu gritava palavras libertas no corredor de uma casa vazia, vizinha à minha casa. E corria para ouvir o eco entrando em nossa sala de jantar. Eu descobrira, aos sete, a fascinante sonoridade das sílabas. Teria sido o meu batismo poético, talvez. Tenho algumas palavras sufocadas na garganta e o mundo às vezes me parece um corredor vazio. Por isso, escrevo poemas e canções.
5. Espelhos
Na saída das matinês, tínhamos um travesso e divertido programa: ver nossa imagem nos espelhos côncavos e convexos do Hotel Brasil, em Bagé. Era uma fuzarca nos depararmos, esquálidos, no espelho côncavo; e obesos, no convexo. O porteiro do hotel, lá pelas tantas, terminava com nossa algazarra. Tenho a impressão que o Estado brasileiro se mirou no espelho convexo e engordou cômica e tragicamente. O porteiro estava de férias... e já era hora de o Estado mirar-se no espelho côncavo e depois encarar suas devidas e exatas medidas e proporções.

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