ANO: 25 | Nº: 6311

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
13/12/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Casados com a insatisfação

A ilha individual, que muitos de nós julgam existir, não passa de um grande equívoco de observação. É um atestado da ignorância que persegue a existência social. Somos (ou deveríamos ser) naturalmente sociáveis em nossas individualidades. Sozinhos e sem continuidade, pereceremos.

Mas, em nossa quadra, não existem dúvidas quanto a um excessivo apreço ao individualismo. Sem entrar na causa que deu origem a essa visão de mundo, que repousa nas produtivas rupturas liberais da modernidade e desagua no esquizofrênico progressismo que louva o coletivismo, mas é viciado em liberdades individuais que provoquem abalos na tradição, o fato é que somos herdeiros disso. E é muito comum ver espraiada na cultura ocidental a ideia de que a felicidade depende da concretização desses anseios individuais sem que haja qualquer limitação naquilo que se deseja.

Em 06/05/2016, o Washington Post publicou o artigo “Why having children is bad for your marriage” (Por que ter filhos é ruim para seu casamento), de Matthew D. Johnson, que tratou sobre os efeitos psicológicos que o nascimento de um filho traz para um casal. Neste texto, que é uma visão resumida das pesquisas realizadas por cerca de 30 anos sobre esse tema, Johnson afirma que a enorme expectativa pelo surgimento da criança contrasta com uma flagrante deterioração do casamento. Ao serem realizadas comparações sobre os níveis de satisfação de casais com e sem filhos, Johnson assevera que o declínio na satisfação é quase duas vezes mais íngreme naqueles casamentos que geraram filhos. O autor do texto ainda indica que as razões para tal situação estão na alteração da dinâmica dos pais: cria-se uma distância e formalidade maior no casal; há um gasto de energia excessivo para com atividades necessárias ao desenvolvimento da criança, e não existem mais discussões sobre o casal, mas sim sobre os problemas que envolvem o filho. Com isso, os antes amantes, viram pais, o que diminui o volume de intimidades entre o casal.

Outro estudo, divulgado no final de 2016, da Open University, concorda com as conclusões de Johnson. Para Jacqui Gabb, uma das responsáveis pela investigação, há um deslocamento de foco por parte da mãe: do marido para a criança. E, paradoxalmente, mesmo com a insatisfação com o seu parceiro, as mães são significantemente mais felizes com a vida do que as mulheres sem filhos.

Hoje em dia, relacionamentos tendem a almejar o melhor dos mundos possíveis do ponto de vista individual. Creem na mais absoluta independência, na infinitude de escolhas pessoais e estruturam suas linhas de comunicação com o mundo sem qualquer interferência externa. O casamento é visto como um mero contrato de vontades individuais. Todavia, na prática, um filho sempre alterará as cláusulas; afinal, acrescentará incisos, alíneas e parágrafos que comportam relativizações dos desejos mais profundos.

Outrora não se imaginava o casamento como um parque de diversões para adultos, mas sim como uma firme comunhão de amor ao presente e ao futuro. A visão compartilhada era de que filhos não diminuíam a satisfação do casal, eles eram a firme expressão do quão satisfeitos estão. Como diria o grande G. K. Chesterton, “a família é a fábrica que produz a humanidade, e o inimigo do amor e da família é o próprio Eu. O individualismo é uma ilusão adolescente”.

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