ANO: 25 | Nº: 6353

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
15/12/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Fé cega, faca amolada

Como disse o Padre Fábio de Melo, “eu confio na proteção divina, mas olho para os dois lados antes de atravessar a rua.” É exatamente isso que penso sobre fé, crença, confiança da interferência de forças superiores no nosso cotidiano e no nosso destino. O fato de acreditar em Deus, no Seu Filho e no Espírito Santo, não impede que eu use minimamente a razão para viver e tomar decisões.
Para muitos o problema reside aí, em tratar fé e razão como coisas incompatíveis ou excludentes. Acham que quem usa a razão não pode ter fé e só tem fé quem abre mão ou é desprovido de racionalidade. Em meu sentir se trata de um argumento simplista e maniqueísta, muito apreciado pelos gaúchos e crescente nos últimos tempos, sobretudo durante a última campanha eleitoral caracterizada pelo extremismo, transformando tudo numa luta inglória entre a direita e a esquerda.
Penso como Louis Pasteur que sentenciou “um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima.” Minha fé passa muito pela razão e exatamente por isso que não aprecio rituais e argumentos que repousam em dogmas infundados e, às vezes, até contraditórios com aquilo que a Bíblia Sagrada relata sobre as ações e pregações do filho de Deus.
Ao longo da vida conheci pessoas que separam a vida pessoal ou profissional da vida religiosa como se fossem dois mundos distantes, ou seja, ignoram orientações religiosas em função da profissão ou da circunstância pessoal. Da mesma forma, conheci gente que repudia a religião em função de uma interpretação completamente equivocada daquilo que a igreja ou a Bíblia diz ou recomenda. Interpretações literais de um texto escrito há milênios.
Penso que a fé permite a gente enxergar mais do que a simples visão proporciona, mas lamento ver que, muitas vezes, a fé cega o crente, não deixando que sua razão funcione. As recentes e ruidosas denúncias contra o João Teixeira de Faria, vulgo João de Deus, trouxeram à tona depoimentos de suas supostas vítimas que me chamaram a atenção por dois motivos: o modus operandi do suposto abusador – confirmado pelos diferentes testemunhos – e a crença de quase todas de que aqueles atos libidinosos faziam parte de um ritual de cura. Relatos indicaram que algumas vítimas eram meninas muito jovens e, nesses casos, é compreensível que elas carecessem de discernimento e personalidade suficiente para reagir e fazer cessar o abuso, mas, no geral, as denúncias vieram de mulheres maduras e experientes, em plenas condições de entender racionalmente o que estava acontecendo.
É claro que as supostas vítimas não têm culpa pelos supostos abusos que disseram ter sofrido e, também, que quase todas estavam muito fragilizadas pela moléstia que lhes atingiam e que as levaram até aquele lugar, com a forte esperança de alcançar a cura. Mas daí a não perceber que aquilo era um ato de abuso, exige que a pessoa esteja tomada de uma fé cega, a que me referi no início. E a fé cega é sim, uma faca amolada, pronta para cortar, para fazer o mal. A faca amolada, nesse caso, estava nas mãos do abusador que provavelmente percebia esta cegueira em suas vítimas.
Pessoas se suicidam pela fé, pessoas matam pela fé e, infelizmente, pessoas se deixam abusar pela fé. Neste contexto, encerro adaptando a frase que citei no início: Tenha fé, mas não deixe de olhar para os dois lados antes de atravessar a rua.

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