ANO: 24 | Nº: 6163

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
18/12/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Estamos perdendo a noção do tempo

Estamos perdendo a noção do tempo.
E quando digo isso não me refiro aquele estado emocional de experimentar algo tão agradável ou interessante que faz parecer que o tempo correu rápido demais. Não. Não é isso. É a reclamação de muita gente em etapas diferentes da vida. Gente que desabafa não ter tempo para nada, ou que os dias, meses e anos estão passando rápido demais. Tempo, tal qual Zygmunt Bauman definiu, adquiriu nova forma e agora escorre por entre as mãos sem nenhum controle.
Estamos perdendo a noção de tempo porque está cada vez mais difícil lembrar algo realmente significativo que fizemos na última semana, no último mês, no ano passado, nas férias passadas. Torna-se necessário, portanto, nos perguntarmos o porquê.
Estamos perdendo a noção de tempo porque vivemos comandados pelo relógio, entretanto o trabalho, as necessidades e os interesses não estão.
Em tempo integral, somos chamados e alertados sobre alguma forma de interatividade. Estamos sendo atravessados e atropelados pela necessidade de responder a demanda cada vez maior e mais exigente de interação e conectividade.
Estamos perdendo a noção de tempo quando não toleramos esperar por coisas banais da vida, tudo parece nos irritar, queremos agilidade das máquinas, dos sinais de trânsito, dos animais, das crianças, das pessoas em geral. Se alguém nos para, surpreendendo com uma fala, nos sentimos irritados, inquietos. Cada vez mais as pessoas queixam-se por perder uma quantidade de tempo incrível sendo expectadores de amenidades, fatos que não lhe dizem respeito e sobre a vida de terceiros nas redes sociais.
Perdemos a noção de tempo quando deixamos de interagir com quem está do nosso lado para estar em contato via celular com quem está longe.
Toda essa reunião de tempos perdidos é irreparável. Nossos filhos não terão dois anos para sempre. Os acontecimentos e pessoas não ficam congelados a nossa espera! 
Parece que por excesso de estímulos nunca foi tão difícil decidir o que é realmente importante. Não sabemos mais definir prioridade, urgência e necessidades reais.
Por fim, estamos perdendo a noção de tempo porque criamos tecnologia para otimizar nosso tempo e sobrar mais dele para fazer o que interessa. Entretanto, ficamos tão distraídos com nossa própria imagem refletida nesses brinquedinhos tecnológicos que não sobrou espaço para olharmos para dentro e, só assim, discernir o que realmente é relevante e atemporal.

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