ANO: 25 | Nº: 6381

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
27/12/2018 João L. Roschildt (Opinião)

A neutralidade ortodoxa

Tudo ofende. Vivemos "A era do ressentimento", famoso título de uma obra de Luiz Felipe Pondé. No limite, não existem limites sobre as possibilidades de alguém sentir-se ofendido. Qualquer circunstância, momento ou alegação podem ser instrumentos sentimentais, irracionais e "sólidos", para que os propagadores dessa época de ofendidos "comprovem" as grandes crueldades do mundo ocidental.

Mas é claro que nem tudo ofende. O que é perseguido pela sanha progressista tem identidade e endereço bastante claros. Se existe qualquer espécie de valor que reforce algo presente na tradição e nos costumes sociais, aqui se encontra o alvo do esquerdismo contemporâneo. Revolucionar, inverter padrões, destruir estruturas e menoscabar hábitos formadores do patrimônio cultural de nossa civilização fazem parte do repertório. Paradoxalmente, foi a ideia clássica e tradicional de liberdade gestada em nosso modelo de sociedade que permitiu o desenvolvimento de críticas desse calibre. Ou seja, os "ressentidos" nutrem-se da tradição visando à sua derrocada.

E reparem como é comum o ataque à religiosidade, suas datas e símbolos. No final de novembro, foi noticiado que uma menina de 10 anos mobilizou um abaixo-assinado para que o nome de Jesus não fosse retirado de uma canção natalina. E conseguiu. Como assim? Professoras de uma escola localizada em Riviera del Brenta, na região de Veneza, na Itália, angustiadas e aflitas com a possibilidade da presença de alunos e familiares não cristãos na festa de Natal realizada no colégio, resolveram excluir uma parte de um verso da canção "Buon Natale in alegria" para que não provocasse algum tipo de ofensa. Portanto, a parte que cantarola "Vamos, brindemos! Festejemos! Esse é o dia de Jesus", eliminaria o último fragmento, terminando em "Festejemos!". Em nome da tolerância, as intolerantes professoras não aceitavam a vinculação de Jesus com o Natal. Aliás, Jesus e Natal são dois absurdos para o progressismo: mecanismos de opressão e alienação. Todavia, o senso comum (bom senso) de uma pequena menina reverteu, com uma petição, a ideia mirabolante das planejadoras sociais.

Ainda em novembro deste ano, o Daily Mail noticiou que o shopping Ponsonby Central, em Auckland (Nova Zelândia), instalou uma grande escultura do Papai Noel no alto de seu prédio. O detalhe é que o bom velhinho resolveu "lacrar": ele está com sua tradicional barba, mas está vestindo uma lingerie e espartilhos, ao mesmo tempo em que segura um guarda-chuva e uma bolsa feminina. A equipe que organizou essa versão alternativa disse que "nossa representação do Papai Noel pode ser Mary Poppins ou qualquer raça/gênero/convicção que preferimos ou podemos imaginar", aproveitando para atacar o monopólio da Coca-Cola sobre o símbolo do Natal. No Facebook, o shopping declarou que o Papai Noel ficou um pouco atrevido. Mais uma vez, o senso comum da maior parte dos que se pronunciaram naquela rede social desaprovou a medida por sexualizar um personagem infantil.

É inegável que a raiz da cultura ocidental repousa em valores cristãos e tudo o que os reforça. Aviltá-los significa quebrar as bases que estruturaram o que recebemos de herança e comprometer o futuro. Os planificadores de gabinete com suas ortodoxias são conscientes disso. Travestem-se de neutros, mas adoram roupas vermelhas.

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