ANO: 25 | Nº: 6259

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
03/01/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Turminha do progressismo

O totalitarismo, como uma entidade monstruosa, repleta de cabeças e tentáculos, esparrama-se em todas as esferas da vida. Se, no passado, os totalitários aderiam à força para aplicar seus métodos, hoje são adeptos da contaminação viral. Sabem que, para replicar sua ideologia, necessitam de uma firme aglutinação mental à sua causa. E, para tanto, dominar a cultura é fator determinante para seu sucesso. Aos que se opõem a isso, resta-lhes serem vistos como seres místicos, que professam mirabolantes e fantasiosas teorias conspiratórias.

Dias antes do último Natal, a Folha de S. Paulo noticiou que as produções masculinas dos quadrinhos de Mauricio de Sousa não farão adesão as bandeiras de gênero: “Não deverão usar peças de roupa cor-de-rosa nem brincar de boneca tão cedo”, afirmou o jornal. Para intelectos mais “avançados”, que se mostram anos luz de sua época e que romperam com as tradições ainda presentes, deve ter sido um baque enorme. Na mesma reportagem, o autor da “Turma da Mônica” foi enfático: “Não posso mudar o comportamento dos nossos personagens com novas bandeiras, novas tendências, novas ideologias, e arrebentar toda a nossa história”. Como não? Como Mauricio de Sousa afronta aquilo que representa a fina-flor do progresso? Às favas com a história. O que interessa para o imaginário totalitário é a causa. E a história que se adapte à ideologia.

No entanto, o criador de Cebolinha e Cascão foi mais corajoso. Para ele, as decisões de seus processos de criação não envolvem apenas fatores comerciais, mas sim convicções filosóficas ao declarar que “eu me coloco com um criador com um nível de cultura que tende para um conservadorismo”, enfatizando que “é um conservadorismo vivo e atento, pronto para entrar em transformações assim que a sociedade aceitá-las [as mudanças]”. Em outras palavras, Mauricio de Sousa não é apetrecho de ideologias que almejam novos rumos para a sociedade. Sua arte tenta retratar a vida sem planificar modificações. Em linguagem política, ela não está “aparelhada”.

Sobre o tema do bullying, o quadrinista disse que a gozação e a brincadeira de outrora, “tomou um ar de pecado mortal”, ressalvando que a ofensa pode ser algo grave para alguém mais frágil. Todavia, “a Mônica [...] dá um recado de como não se deve sofrer [...]: é só reagir com uma coelhada ou reagir com vigor. E não levar para a casa. Reagiu, acabou”. Para ele, tal conselho serviu para a criação de seus filhos e netos: “Palavras, frases, xingamento, isso não mata ninguém. Há competição sempre. Inveja. Uma porção de coisas assim, com que o pessoal tem que aprender a conviver”. Uma geração incapaz de enfrentar os vícios da natureza humana está fadada à inabilidade de viver, característica que pode ser detectada em crianças e jovens da última geração. Mas, cuidado! Talvez até mesmo afirmações desse tipo possam soar demasiadamente ofensivas.

Para os protofascistas, gibis são peças interessantes para movimentar a engrenagem social desde a tenra infância. Não há nada de conspiratório nisso. De forma lúdica, inserem uma narrativa irreal, que reinterpreta o mundo à sua imagem e semelhança. Para a turminha do progressismo, a ideologia deve estar em simbiose com todos os espaços que formam e simbolizam processos culturais. No entanto, Mauricio de Sousa deu uma coelhada neles.

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