ANO: 25 | Nº: 6257

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
05/01/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Velha história

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que pescou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho.
Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés.
Como era tocante vê-los no “17”!- o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando o peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial...
Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:
“Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te ao carinho de teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...”
Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água.
E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando...até que o peixinho morreu afogado...

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Amigos, não achei algo melhor neste início de ano que reproduzir um poema de Mário Quintana. Um pouco por nostalgia, reconheço.
É que remexendo antigos discos encontrei um vinil dos “Jograis de São Paulo”, constituído pelos atores Armando Bógus, Carlos Vergueiro, Rubens de Falco e Ruy Afonso declamando Bandeira, Cecília Meireles, Drummond de Andrade, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Murilo Mendes e também o texto que transcrevi de Mário Quintana. A declamação, e especialmente o jogral, era a moda de certa época.
E num Festival de Poesia Moderna que professores e alunos encenaram em outubro de 1957 no Colégio Estadual o saudoso Davizinho Simões Pires, Antônio Luís Vieira (gabrielense) e eu, entre cicios e brados, recitamos “O Dia da Criação”, de Vinicius de Moraes.
No espetáculo tocou ainda ao jovem professor interpretar o poema transcrito e que passou a vociferar em aniversários da família até que a memória lhe apagasse alguns neurônios, substituídos por silêncios encabulados...
Que neste ano a gente, por egoísmo ou intolerância, não retire os peixinhos d’água para depois abandoná-los, desfalecidos, em seu próprio lago.

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