ANO: 24 | Nº: 6136

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
10/01/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Quem são os cachorros?

Com as práticas sexuais sem as amarras tradicionais, os criativos seres humanos não se cansam de buscar novas formas de prazeres. Impedimentos são vistos como tabus. E, por seu turno, tabus existem para serem quebrados.

Essa mentalidade contemporânea, que desenvolveu uma tara política por sexo, também opera na lógica de quanto mais vulgar, melhor. Escrachar tornou-se um imperativo para chocar à sociedade. Na gramática gestada por esses revolucionários, é digno ser indigno com seus pudores. O auge da excitação é o desencontro com os limites. Buscar algo sublime para enlaçar um amor? Hipocrisia.

Na contramão disso tudo, “no momento em que o sexo deixa de ser um servo, ele se torna um tirano”, como afirmou Chesterton. Ou seja, a aclamada liberdade sexual desmesurada não passa de uma prisão de (in)segurança máxima. Como paradoxo, a saturação da lascívia retira a autonomia individual.

Em 05/07/2018, a revista Marie Claire divulgou que a grande novidade entre casais é fazer sexo em locais públicos, sendo observados ou permitindo a participação de desconhecidos. É o que usualmente se chama de dogging, gíria que pode ser entendida como derivada do fato de as pessoas levarem seus cachorros para passear e aproveitarem a oportunidade para “contemplar” indivíduos praticando sexo. Tal prática é de origem inglesa e é uma febre naquele país. No caso brasileiro, a mencionada revista expôs um relato de uma jornalista e de seu marido.

De acordo com a descrição, o casal era habitué de orgias e casas de swing. Após o nascimento de seus filhos, tal situação “esfriou”. Então, para “esquentar” a relação, surgiu o dogging. Assim, a jornalista relata: “[...] a vida toda encarei o sexo como arma de empoderamento. Transar livremente [...] é uma forma de alimentar minha libido, meus desejos e minhas lutas”. Reparem que libertar o sexo de qualquer “grilhão” nutre os combates da jornalista. É o sexo como política.

Ao relatar como foi a sua noite sexual, ela disse que o casal estacionou o carro em uma praça e, ao acender as luzes do carro, vários homens surgiram. De pronto, a jornalista baixou o vidro de seu carro enquanto beijava seu marido, e aqueles homens a acariciavam das mais variadas formas. Outros se masturbavam. Com uma maior participação ativa dos homens, dadas as posições sexuais executadas, outros carros se aproximaram. Enquanto transava com seu marido, ela relatou que se sentiu “num campo de futebol cercada por uma torcida organizada que vibrava com o jogo que assistia [...] gozei e me pareceu que todos aqueles homens tinham gozado comigo. Ou melhor, para mim”. A metáfora da torcida organizada foi precisa: não há nada mais selvagem do que um grupo organizado em torno de uma paixão.

Não faltarão vozes apontando que as críticas são moralistas ou preconceituosas. Todavia, a busca por um sentido transcendente é inerente na experiência humana. Algo não presente nos animais inferiores. Retomando Chesterton, “sexo é um instinto que produz uma instituição [...] Essa instituição é a família; um pequeno estado ou comunidade que, uma vez iniciada, tem centenas de aspectos que não são de modo algum sexuais. [...] O sexo é o portão dessa casa [...] Mas a casa é muito maior que o portão. Há, de fato, um certo número de pessoas que gostam de esperar no portão e nunca mais ir além disso”.

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