ANO: 25 | Nº: 6379

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
12/01/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Apostas

Nenhum ser humano maior e capaz escapa da sina de fazer escolhas, tomar decisões e isso pode interferir decisivamente no seu futuro. Para tanto fomos apetrechados com aquilo que chamamos de livre arbítrio que, como diz a música, transforma cada escolha em uma renúncia.
Tempos depois podemos avaliar se lá no passado fizemos boas ou más escolhas, acertadas ou desacertadas renúncias. É um exercício que pode ser tão divertido quanto melancólico, mas o certo é que lá atrás, sempre que possível, a maioria dos mortais gastou muito tempo e neurônios para tomar decisões. Quem não teve tempo e não tinha conhecimento nem experiência para tomar as melhores decisões, teve que contar com a sorte. E se faltou sorte, o consolo vem da frase de Ortega y Gasset: “eu sou eu e minha circunstância”. Naquele momento, com o que a pessoa sabia e, principalmente, com o que ela não sabia, fica menos difícil explicar o erro.
Todavia, mesmo com todo o tempo do mundo e com plena capacidade de avaliar todos os riscos, nem sempre é possível garantir que faremos boas escolhas. São aquelas situações em que fazemos uma aposta, ou seja, uma escolha cujo sucesso depende mais de sorte do que de juízo.
No caso de pessoas físicas, as consequências negativas de apostas erradas atingirão principalmente o “apostador”, eventualmente com reflexos graves para outras pessoas também. Porém, se quem apostar for uma pessoa jurídica, os estragos podem ser bem maiores e difusos, atingindo não só a própria pessoa, como também seus clientes/usuários e colaboradores.
Quantos empreendimentos sucumbiram ou enfrentaram grandes dificuldades em função de decisões erradas de seus gestores? Apostas erradas na hora errada, mais uma demora em admitir o erro, tornando inviável uma reversão, e... pronto! Lá se vai mais um empreendimento de sucesso.
A mais distante lembrança que tenho a este respeito é a do formato das fitas de vídeo lá na década de 80. Betamax ou VHS? Acompanhei de perto esta questão, pois foi bem na época que adquirimos nosso primeiro vídeo cassete, quando ainda se ouvia boatos de que o futuro era o Betamax. Mais ou menos na mesma época surgiu o dilema dos videogames. O Odyssey, da Philips, era muito bom, mas o Atari surgia com força no mercado. Para quem queria sair do Tele-jogo, a evolução tinha se tornado uma dor de cabeça.
Bem mais tarde tivemos que decidir sobre a mudança de tecnologia dos celulares: o CDMA da Vivo ou o GSM (com chip) das outras operadoras? Lembro como se fosse hoje dos fortes e convincentes argumentos do vendedor da Vivo que me vendeu o meu último celular CDMA. Me dei mal!
Será que os donos de aparelhos e mídias Blu-ray estão satisfeitos? E os que compraram ou converteram o carro para andar com GNV? Será que vale a pena investir em placas fotovoltaicas? Mineração ou preservação do Camaquã? Termoelétrica ou eólica? E-commerce ou loja física? Ensino à distância ou presencial? Nespresso, Dolce Gusto ou Tres? Carro elétrico ou híbrido? Jornal impresso ou “on-line”? Apostas de mercado, antigas ou atuais, que atingem milhares de pessoas e que podem provocar pequenos e grandes prejuízos para os envolvidos.
Com estes e outros dilemas que tive o privilégio de testemunhar, aprendi que a sabedoria popular apresenta uma resposta aparentemente inusitada, mas não desprezível: “Com os loucos a gente corre para o lado que eles disparam.” Via de regra o comportamento de manada não é o mais indicado, mas, se observarmos, em quase todos os dilemas acima citados, se a pessoa não fizer questão de um arriscado pioneirismo, um breve atraso na tomada de decisão pode fazer a diferença entre o acerto e o erro.  O comportamento de manada pode sinalizar o rumo certo, além de dar a tranquilidade de saber que, se errarmos, não erraremos sozinhos.

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