ANO: 25 | Nº: 6261

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
12/01/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

As palavras da moda

As palavras se desgastam. Muitas vezes são substituídas por outras para retirar delas preconceito ou corrosão. Mas também brotam impelidas por bordões ou fala corriqueira incorporando-se ao vocabulário; ou ainda, como ora acontece, transfiguram-se do sentido semântico para adotar outra roupagem. Os tempos recentes dão senso a alguns termos.
Por exemplo, a palavra mais usada por cientistas políticos e entrevistados com afetação foi de que se vive uma “fase disruptiva”. Isso dito em tom magistral. O resultado das eleições foi consequência de “disrupção” do sistema, o que também ocorre nos costumes. Essa acepção novidadeira se desgarra, em parte, ou adota novo matiz, em relação ao que o dicionário ensina: ato ou efeito de romper-se; ruptura, interrupção normal de um processo; fratura; formação de turbilhões em torno de obstáculos ao escoamento de fluídos. No velho latim “disruptio” é uma quebra. Expressão muito boa para a hora do cafezinho, o que atrai os olhares e ouvidos conspícuos. Ou para impressionar a namorada.
Vinda do mundo desportivo está na crista da onda a palavra “resenha”, que é uma descrição feita com detalhes; verificação pormenorizada; o resumo de texto; a recensão ou análise de algum livro; a notícia jornalística vista por vários ângulos; um panorama. Antes se ligava o rádio para ouvir a “resenha esportiva”, o resultado da domingueira. Hoje não: resenha ganhou solenidade; um palestrante sempre profere resenha acadêmica de um assunto especial; o governante faz a resenha de sua atividade; alguém, com algum pedantismo, proclama a resenha de suas ideias, sob aplausos.
Correlato anda o termo “narrativa”, muito utilizada em programas de futebol para apontar que o atleta contou um fato pitoresco ou descreveu sua vida; ou o cidadão que dá lição sobre tema complexo; ou até para diminuir a potência ou veracidade de um acontecimento. Ali se usava mais para encadear fatos reais ou imaginários; o enredo de um conto, novela, romance tinham narrativa apreciada; ou o conjunto de obras de certa época. Hoje qualquer papo é narrativa, muitas vezes até com contorno pejorativo.
Querem anotar outra palavra da moda? Radar. Tal coisa está no radar das minhas expectativas; - o que pedistes está no radar de meus objetivos; o radar da administração indica que a obra será realizada em...; hoje é o radar de minhas intenções.... Deu-se sonoridade relevante ao que era simples técnica de localização de objetos distantes como um avião, um submarino; o retorno de modestas ondas radioelétricas depois de refletir em algo distante. Radar está muito prestigiado em diálogos atenciosos.
Tenho um conhecido que não dispensa em suas falas a palavra “cenário”: “investiguei o cenário e....”; “temos de abandonar o antigo cenário e percorrer outra via”; “o meu cenário não é favorável para a operação...”. Cenário, outrora, era o espaço do espetáculo teatral, cinematográfico ou outro, aonde decorria uma ação ou parte de uma peça. Lugar da cena.
Recordo época em que, em discursos e aulas, me policiava para não repetir tanto “sem dúvida alguma”, “indubitavelmente” e até “com certeza”, jargões insinuantes.
Por respeito deixo de registrar a abundância de termos escatológicos que agora arrebentaram as portas do hábito e da conveniência; e também daqueles que ilustram os pudibundos órgãos sexuais hoje plenamente incorporados às exclamações mais inocentes, nos títulos de obras e até nas mesas das melhores famílias.
E assim se chega ao fim desta “toada”...

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