ANO: 25 | Nº: 6401
16/01/2019 Luiz Coronel (Opinião)

Obrigado, Bagé!

1. Sou um provinciano de coração. Acredito, piedosamente, que a alma dos países, e vale dizer para os estados da federação, está nas cidades do interior. Nas grandes cidades a vida se dispersa. Não estão vazias de memórias nem desprovidas de encantos, porém o sentimento do mundo vibra mais forte na alma interiorana. Modas, modismos, as frivolidades que assolam os nossos tempos, não podemos dizer que elas estejam bloqueadas nos lares municipais, apenas não realizam, com tal intensidade, essa triste lavagem cultural. As cidades do interior resistem à vertigem uniformizadora da globalização.
2. Tenho-me por um bajeense dos quatro costados. "A infância é a verdadeira pátria de um homem", escreveu Balzac. Minha infância, com suas sombras e luzes, é Bagé. Posso estar na Praça São Marcos, de Veneza, mas, verdadeiramente, sou sempre a Praça de Esportes. Ainda ouço, nas noites frias e desertas, os ferros dos balanços soluçando, intermitentes. Ali, na antiga Félix da Cunha, 76, morava um tio muito beato, que abriu os braços e a porta e me acolheu. Aos domingos, na casa dos padrinhos, eu saboreava o pão da ternura humana.
3. Em Bagé, me iniciei nas artes. Dancei tangos com a capa de violoncelos, no Variedades G4, fui aos bailes infantis do Recreativo e, quando ganhei do tio José Dias Martins, uma carteira do Clube Comercial, foi uma espécie de alforria. O mundo era quase meu. Os grandes sobrenomes me acolhiam, é verdade: não há espaço para ressentimentos. Não era o que se chamava "um bom partido", era um pé de alferes, rodopiando pela periferia dos salões do Comercial. A poesia era um segredo, mas recheava meus rotos bolsos de tímidos versos.
4. E a roda do tempo girando, e o jovenzinho, que chegou à capital pulando trilhos de bonde pensando que dava choque, foi improvisando a sua vida. Vendeu polígrafos à porta de cursos de pré-vestibular, namorou moças bonitas, se fez pequeno magistrado, publicitário, mas a poesia sempre se revelou uma convocação irresistível. E os livros se sucederam. E uma obra bem vasta constitui a sua obra. Com ela, caminha no tempo. Com ela, deixa o testemunho de sua vida, do mundo ao seu tempo.
5. Bagé, às vezes, parecia um retrato na gaveta. Apenas memória. O ano de 2018 me devolveu Bagé, ou, quem sabe, fui devolvido à cidade. Conduzidas pelo generoso anfitrião Sávio Machado, foram prestadas sucessivas homenagens aos meus 80 anos. A cada momento, baluartes da vida cultural bajeense postavam-se, ao meu lado, efusivos e solidários. O poder público, as instituições culturais, os amigos de sempre emprestando o calor de seu afeto a cada evento programado.
6. Não, não era o filho pródigo que regressava à casa do pai. Não, era o retorno de quem, verdadeiramente, nunca abandonou sua terra. Nela aprendeu a densidade de sua gente. E cada uma das homenagens recebidas, qual elixir milagroso, rejuvenesceu o homenageado.Colho deste grato convívio uma visão muito clara das potencialidades culturais de minha cidade. Um fluxo de forças inconscientes, porém vitais, inspira nossos artistas, pintores, músicos, bailarinos e escritores ao longo do tempo. É com o coração densamente sensibilizado pelas deferências estendidas por minha cidade que, lá do fundo do coração, expresso meus agradecimentos. Obrigado! Muito obrigado, Bagé.

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