ANO: 25 | Nº: 6380

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
17/01/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Discriminação vaginal

Nos EUA, a cor rosa já foi alvo de polêmica. Como forma de protesto contra o governo Trump, movimentos sociais que “lutam” pelos direitos das mulheres, organizaram manifestações um dia após a posse daquele presidente, que se deu em 20/01/2017. Conhecida como “Marcha das mulheres”, o evento notabilizou-se por uma característica peculiar por parte das manifestantes: o uso de um gorro rosa. Denominado de pussy hat, tal acessório de lã também possuía orelhas de gato. O propósito do nome está baseado em um trocadilho, levando em consideração que a palavra pussy, em língua inglesa, pode significar gatinho como uma forma chula de fazer referência ao órgão feminino. Essa última acepção é uma clara menção à forma com que Trump se referiu, em áudio de 2005, à genitália feminina.

Pouco tempo após o primeiro protesto, em fevereiro de 2017, o progressismo virou-se contra o progressismo. De acordo com a NBC News, a despeito das críticas indicando que o pussy hat igualava gênero com biologia, o que fez com que alguns transgêneros se sentissem excluídos do movimento, surgiu o pensamento de que tal marcha era racista. O motivo? Em razão de alguns críticos verem na cor rosa algo próximo ao tom de pele tomado como branco. Uma das lideranças do movimento, Krista Suh, rechaçou tais considerações, mas os rótulos “preconceituosos” já haviam sido instaurados.

Já às vésperas das manifestações de janeiro de 2018, algumas feministas resolveram declarar que iriam abandonar os gorros rosas, porque julgaram que alguns grupos não seriam bem-vindos. Quais grupos? De acordo com o Detroit Free Press, transgêneros e “mulheres de cor”. Phoebe Hopps, fundadora e presidente do movimento em Michigan, disse que não usaria o gorro porque machucaria os sentimentos de algumas pessoas. O capítulo da “Marcha das mulheres”, em Pensacola, Flórida, enfatizou que iria desencorajar as mulheres a usarem aquela touca porque ela “reforça a noção de que mulher = vagina e vagina = mulher”, complementando que o acessório “é focado no branco e eurocêntrico, na medida em que presume que todas as vaginas são rosas”. Mais uma vez, as lideranças do evento rejeitaram as críticas ao dizerem que não interessa se alguém possui uma vulva ou qual cor a vulva possui; e que, se uma manifestante desejasse criar um gorro com a cor de sua vagina, elas iriam apoiar.

Aos olhos envoltos em uma miopia ideológica, a opressão está nos mais variados lugares. O inimigo pode estar disfarçado em cores ou na tonalidade da vagina alheia. A educação politicamente correta forjou a ferro e fogo indivíduos que oscilam esquizofrenicamente entre uma aderência fervorosa aos coletivos e a busca incessante por libertar-se de qualquer amarra grupal.

A ideologia cega. Seja qual for, impede a reflexão. Fixa o ser humano como um instrumento para uma agenda. Na linguagem da moda, constrói um muro que, em nome da causa, suprime a liberdade e dificulta o bom uso das conexões intelectivas. Nos tempos atuais, coletivos estridentes vislumbram opressão em todos os cantos. Ideólogos e ativistas não passam de presidiários a serviço da abstração. Sedentos por novas vítimas, a catarse das guerreiras da justiça social não respeita nem mesmo suas “manas”.

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