ANO: 25 | Nº: 6312

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
19/01/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

A culpa dos sobreviventes

Volta e meia, ao me safar ou ao ver alguém se safar de alguma situação de risco, fico a pensar sobre a nossa condição de sobreviventes e não de meros viventes. Quando a gente é criança, falam muito do "anjo da guarda" que nos protege. Enfrentamos tantas situações de risco na infância que chegar vivo à adolescência é quase um milagre. Talvez só não seja considerado um milagre porque é a maioria que se salva, mas é incrível sobreviver a tantas doenças, tombos e imprudências típicas da inexperiência ou da inocência. Quem tem filhos sabe disso. Haja anjo da guarda!
Na vida adulta diminuem os riscos, ficamos mais prudentes, nossos erros já nos ensinaram muito, mas mesmo assim não estamos livres, sobretudo para quem mora no Brasil. Conviver com mais bandidos soltos do que presos; com uma imensidão de barbeiros – bêbados ou não – dirigindo verdadeiras sucatas sobre rodas, e com governos ausentes ou tolerantes na fiscalização ou manutenção de construções ou serviços que podem colocar nossas vidas em risco, e continuar vivendo, também não deixa de ser um milagre. Assim, com um pouco de boa vontade, fica evidente que estamos mais para sobreviventes do que para viventes.
Ser sobrevivente, neste contexto, não nos traz culpa ou remorso. Muito pelo contrário, temos que levantar as mãos para o céu e agradecer por estarmos vivos apesar de todos os riscos que corremos. Na verdade, somos abençoados ou afortunados só pelo fato de continuar vivendo.
Todavia, sobreviver nem sempre traz esta sensação de conforto ou de gratidão à providência divina. Dependendo da circunstância sobreviver pode trazer remorso ou desgosto. O ator Dan Stulbach, quando promovia o filme "Tempos de paz", deu uma entrevista onde afirmou que este filme enfatiza uma espécie de culpa daqueles que sobreviveram à 2ª Guerra Mundial. Sobreviver naquela circunstância poderia estar relacionado a uma atitude covarde, de fuga, de não enfrentamento. Morrer, pelo contrário e em regra, era considerado algo heróico e corajoso, mesmo que fosse mera falta de sorte ou prudência. Esta sensação descrita por Stulbach na entrevista, remete àquela cena final do filme "O resgate do soldado Ryan" (Saving private Ryan, EUA, 1998), onde o sobrevivente visita o túmulo de quem liderou seu resgate, para fazer uma "prestação de contas" de sua vida. Cena emocionante que proporciona esta reflexão sobre a dignidade da morte de quem salva e do consequente dever de honrar aquela morte por parte de quem foi salvo. O sobrevivente assume uma dívida eterna cujo preço será tornar os dias que lhe restam dignos da morte de seu salvador. Apesar de poder significar uma responsabilidade a mais para o resto da vida ou de gerar um sentimento de culpa, este dever moral assumido por quem sobrevive pode ser bastante positivo no sentido de proporcionar o seu aperfeiçoamento como pessoa. Então, a consciência de que somos sobreviventes, mesmo que venha acompanhada de um sentimento de culpa, traz mais ganhos do que perdas.

 

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