ANO: 25 | Nº: 6404

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
19/01/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Espanhóis em Bagé e Lavras

Há livro no Museu Júlio de Castilhos com o registro de estrangeiros em Pelotas, o que aponta indícios sobre a presença de franceses, uruguaios, espanhóis, portugueses, italianos, alemães e outras nacionalidades na região Sul desde 1844. Aí encontro, até, um parente afim, Guilherme Litran, artista laureado na Espanha, pintor, desenhista, professor com obras de relevo na Princesa do Sul e no estado, ascendente de outro Litran casado com minha tia Francisca Giorgis.
O historiador Klaus Becker, que se dedicou ao estudo de diversas imigrações, fornece uma relação das famílias espanholas que vieram para Bagé, conservando-se a grafia do texto original: Guylain, Vives, Ollé, Torrescasana, Abascal, Perez, Suñe, Gòmez (entre eles Norberto Gòmez, bisavô de minha esposa Neusa Maria), Galibern, Gonzales, Calo, Muñoz, Gontan, Garcia, Casanova, Santayana, Fernandez, Ustárroz, Servans, Biurrun, Rovira, Olivela, Castro, Ximenez, Villamil, Saavedra, Varela, Oliveras, Bonet, Viza, Etchegoyen, Coé, Rossel, Gadea, Ilarreguy, Masramon, Carrion, Madruga, Mandariaga, Miranda (professor Miranda), Llovet, Ruiz, Parera, Costallat, Garrastazu, Mata, Pitrez, Pons, Bueno, Moyano (ou Mariano), Salórzano, Monmany, Pardo, Viñas, Bidart, Alcalde, Martinez, Valls, Collares, Ribas, Michelena, Rojira. Aqui encontram-se linhagens catalães, bascas, galegas e gente de La Coruña, Navarra, Tarragona, Gerona e outros lugares.
Na vizinha Lavras do Sul situaram-se as famílias Echevarria, Gutierrez, Goti, Perlacia, Mesa, Múnera (1º médico de Lavras), Francisco Lopez (Paco, 1º explorador das minas de ouro de Lavras), Juan Torres, Rosat, Budó, Salguero, Gomez (de que descende o ator Paulo José), Gomez del Arroyo, Sainz, Anillo, Lastra, Sanjurjo, Dorado, Minobis, Galisteo, Abascal e Crespo.
A Primeira Diretoria da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos, fundada em 1º de janeiro de 1869 era constituída por Ramon Galibern, presidente; José Pedro Salórzano, vice-presidente; Emílio J. Garcia, secretário; Agustin Sugasti, tesoureiro; Benito Gontan, procurador. A Junta Administrativa estava formada por José Antonio Garrastazu, Narciso E. Casanova, José Masramon, João Coelho, Juaquin Oliveras, José Pardo Santayana. A entidade iniciou com 66 sócios e 18 sócios fundadores.
A historiadora Elizabeth atesta, contudo, que a data acima se refere à inauguração, eis que a sociedade, na verdade, fora criada em 20 de dezembro de 1868, por iniciativa de José Loza, alfaiate espanhol, com trinta anos de idade, oriundo de Cádiz, em vista de necessidade surgida de uma necessária convivência dos espanhóis aqui radicados, em tempos de Guerra do Paraguai. Aduz ainda, que 65 foram os fundadores e 15 os protetores. Comemoram-se, pois, 150 anos desta benquista instituição.
A professora Neiva Petri Martinez narra que os primeiros planos da sociedade foi o de erguer um prédio para abriga-la, o que foi feito com recursos próprios e com grande empenho da colônia, tendo sido comprado terreno de Nicolás Alamon e elaborado projeto, atribuído a Pedro Obino,  que transitou por diversos presidentes como Ramon Galibern, Juan Cuello, José Coll, José Masramon, José Pardo Santayana, Joaquim Oliveras, Narciso Casanovas, Pantaleón del Llano, Andres Legeren, Martin Llovet e Simon Bonet; mesmo inaugurado, mas incompleto, seguiram-se as gestões de Emílio Abascal, Baldomero Villamil, Nicolás Alamon, Antonio Valls e finalmente Martin Rossel. Essa edificação, o “Solar”, foi terminada em 26 de maio de 1929 e locado ao Clube Comercial, e depois, em 1934, para a professora Rita Jobim Vasconcellos que ali instalou o Conservatório de Música, atual IMBA.
O artístico prédio da Rua Monsenhor Costábile Hipólito, onde hoje está a sociedade, pertencera a Francisco Bidone que, em 1919 vendera para José Antônio Landó, proprietário do Hotel Internacional (depois Hotel Landó), posteriormente transferido para o argentino Alfredo Izaia Perula, que o negociou em 22 de junho de 1933 com os espanhóis. Logo se procederam as alterações em obediência ao artístico projeto do louvado Henrique Tobal, tendo o presidente Jacinto Ollé Rovira entregue a obra em 12 de agosto de 1934 para sede social e teatro.
Segundo Elizabeth o primeiro espanhol de que se tem notícia formal teria sido Domingos Curbello, criador, casado, residente no interior do município, que se apresentou ao consulado em 21 de fevereiro de 1865, como tendo aqui chegado em 1810, com três anos de idade (Bagé não havia nascido).
Não se descarte a possibilidade do ingresso pelo Uruguai, alguns vindos da Argentina, pois, como registrado em outro artigo, a cidade foi núcleo importante de jornalistas espanhóis anarquistas que aqui deixaram expressiva imprensa de renome mundial.

FONTES: 1. Inventário Cultural de Bagé, de Elizabeth Macedo de Fagundes, 2e, Editora Praça da Matriz, 2012. 2. A imigração no Sul do Estado de 1844-1852, de Klaus Becker, Enciclopédia Rio-grandense, Editora Regional Ltda., 1958.

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