ANO: 25 | Nº: 6399

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
24/01/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Exterminadores

Sonhos e desejos são belos bálsamos da espécie humana. Por outro lado, pesadelos ou consequências indesejáveis afligem as reflexões sobre a vida. Mas, se hoje em dia podemos controlar resultados, haveria algum motivo para vivenciarmos algo que não queremos? A ilustração do que foi questionado pode ser vista no tema do aborto. Quando essa abordagem envolve peculiaridades, como aquelas que decorrem de exames pré-natal, há uma dramaticidade maior.

No caso da Síndrome de Down, alguns dados sobre como a sociedade contemporânea encara “imperfeições” tem tons alarmantes. Na Alemanha, metade dos bebês detectados com trissomia 21 são abortados; na Dinamarca, em 2017, somente 4 crianças nasceram nessa situação; em 2009, na Islândia, foram 3 bebês que vieram ao mundo com Down; já no Reino Unido, 90% das mulheres resolvem abortar quando são informadas que seu filho é portador da referida síndrome (percentual idêntico a da estimativa para toda a Europa); na França, 77% das futuras mães rejeitam esse rótulo quando o bebê foi classificado com Down; nos EUA, tais casos de aborto atingem 67% das gestações detectadas com essa síndrome.

Para se ter alguma ideia mais precisa no que diz respeito à quantificação dos casos citados, de acordo com o The Guardian, cerca de 775 bebês nascem (por ano) com a trissomia 21 na Inglaterra e em Gales. Cruzando os dados que envolvem nascimentos e abortos realizados, tem-se que, no mínimo, 6.975 bebês deixaram de vir ao mundo nesses dois países a cada ano. Algo hediondo para quem possui alguma comiseração com os que foram exterminados no ventre materno em razão de uma específica condição genética. Não esperem tal sentimento de grupelhos coletivistas-progressistas.

No Brasil, em 2016, o debate em torno de situações peculiares que poderiam permitir o aborto fincou suas trincheiras no vírus Zika. Em virtude da possibilidade de um bebê nascer com microcefalia, a “pesquisadora” Débora Diniz (sempre sorridente e de prontidão para justificar um aborto) e “especialistas” da ONU e do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) se mobilizaram para permitir o extermínio daquelas vidas. A Associação Nacional do Defensores Públicos protocolou, perante o Supremo Tribunal Federal (STF), uma ação pleiteando tal permissão abortiva. O ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, ofertou parecer favorável. O STF agendou o julgamento do caso para 22/05/2019. Uma aposta? Dado ao “progresso” do progressismo, provavelmente o STF permita o aborto em tal caso.

Mas boa parte da argumentação sobre as razões que levam uma mulher a abortar nessas situações foram resumidas por Helga Sol Olafsdottir, na Islândia. Ela, funcionária responsável pelo aconselhamento de gestantes que detectaram anomalias cromossômicas, de um grande hospital daquele país, disse sobre o aborto: “Nós damos fim a uma possível vida que poderia ter tido uma complicação enorme [...] Prevenimos o sofrimento para essa criança e para a família”.

Quanta misericórdia! Quanta benevolência! Uma pessoa define o que é sofrimento para outra e, assim, lhe extermina. Claro! Para estes aniquiladores sociais, feto ou qualquer “coisa” que esteja no ventre materno não passa de um ser desprezível ou de um emaranhado de algo. Nunca, moralmente falando, uma pessoa. Ainda mais se não for “perfeita”.

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