ANO: 25 | Nº: 6335

Fernando Risch

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Escritor
25/01/2019 Fernando Risch (Opinião)

Já acabou a eleição, Jair

Vinte e cinco dias desde a posse de Jair Bolsonaro e o que muitos, como eu, esperavam do novo mandatário brasileiro se confirmou: despreparo. Não basta ter um plano de governo subjetivo, respondendo questões complexas como uma criança do ensino fundamental, utilizando a pergunta do enunciado como resposta ("Combate a corrupção? Vamos combater a corrupção."), o governo Bolsonaro começa sem nenhum traquejo em gestão pública e relações exteriores, típico dos aventureiros.

Desde antes da posse, Bolsonaro e equipe já amontoavam um rol de patacoadas que iam de incongruência entre si, denúncias de corrupção (que não entrarei no mérito), anúncios e desanúncios de medidas e fissuras internacionais desnecessárias, simplesmente para agradar seus pares ideológicos, sob o pretexto de "não ser ideológico", em uma contradição tão séria que ameaçou grandes setores do país com parceiros históricos do Brasil.

Nesta semana, uma das ameaças já se tornou real, o presidente da Liga Árabe anunciou o descredenciamento de cinco frigoríficos brasileiros para importações do Oriente Médio. Isso para manter posição sobre a ameaça de Bolsonaro de trocar a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, uma medida sem nexo, apenas para tentar imitar Donald Trump, que tem outros objetivos para os EUA, justificáveis ou não, na região.

Em Davos, na Suíça, no Fórum Econômico Mundial, um espaço onde líderes dos principais países do mundo, grandes empresários e especialistas das mais diversas áreas se reúnem e disputam centímetro a centímetro, aproveitam segundo a segundo para debater e fazer negócios, Bolsonaro e sua equipe se mostraram completamente isolados e alienados com suas presenças e atuações.

Do despreparo já esperado de Bolsonaro veio o discurso de abertura, com 6 minutos de duração, apavorando presentes com a forma sucinta, confusa, vazia e até assustada do presidente brasileiro. Paulo Guedes, o Superministro da Economia, por sua vez, não participou de painel com Christine Lagarde, Diretora-Gerente do FMI. Pra completar, Bolsonaro, Guedes, Sergio Moro e o chancelar Ernesto Araújo não compareceram para a coletiva de imprensa do evento, fato inédito até então. No mesmo dia, Bolsonaro deu entrevista para a Rede Record e afirmou que a coletiva fora cancelada por ordens médicas. Ou seja, ele não pode dar entrevista para o evento, mas pode dar entrevista para a Record. Assim como seu filho, Flávio, que, mesmo intimado, não depõe ao Ministério Público sobre as denúncias de corrupção que caem sobre ele, mas dá entrevista na Record dizendo que não teve oportunidade de esclarecer os fatos. Mas, não entrarei no mérito, como havia dito.

Outro fato que chama atenção é que ao chegar em Davos, Bolsonaro almoçou no bandejão de um supermercado suíço com sua equipe. A imagem foi publicada nas redes sociais pela comunicação do presidente com a legenda: "Milhares de milionários em Davos e o Bolsonaro tá comendo no bandejão com a equipe". Essa pose de humilde até poderia colar em uma campanha eleitoral, mas não mais agora, como presidente do Brasil. Cabe lembrar que Bolsonaro e equipe viajaram, com dinheiro público, no polêmico "AeroLula" e estão hospedados em hotel de luxo na Suíça por quase uma semana.

Num evento que cada segundo conta para fazer negócios, passar uma boa imagem para investidores e trazer investimentos para o país, não faz sentido se isolar num bandejão, longe da presença de chefes de Estado e empresários, ainda mais gastando o que se está gastando com essa viagem. É demagogia pura. Bolsonaro deveria honrar o dinheiro do contribuinte e fazer do seu tempo no Fórum Econômico Mundial algo útil para os brasileiros. Mas a impressão é que Bolsonaro está fugindo da raia e se afastando dos holofotes por gosto, por saber de suas próprias limitações.

Bolsonaro parece que ainda está em campanha eleitoral, tendo que convencer alguém a dedicar-lhe um voto. Isso porque Bolsonaro se preparou para vencer uma eleição, se utilizando dos métodos que fossem necessários e explorando os sentimentos mais latentes de uma população fragilizada. O problema é que agora ele é presidente, e alguém precisa avisá-lo disto ou ele vai descobrir da pior forma possível o histórico antidemocrático brasileiro, que respeitou apenas três mandatos de presidentes eleitos na história da República Federativa do Brasil.

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