ANO: 24 | Nº: 6161

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
26/01/2019 Airton Gusmão (Opinião)

O programa de Jesus

Na liturgia da palavra deste domingo, o evangelho reúne o prólogo de Lucas (1,1-4) e o programa de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21).
No prólogo do seu evangelho, Lucas dedica-o ao "excelentíssimo Teófilo" (amigo de Deus), e nele cada um/a de nós pode se sentir incluído e interpelado. A interpelação que Lucas nos faz é de tornarmo-nos "amigos de Deus" pela acolhida e meditação de sua Palavra. Certamente, nos tornaremos grandes amigos (as) de Deus se na nossa vida formos dóceis à sua Palavra. Como nos diz o Salmo 18b: "Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida" e este é o segredo para uma autêntica vida cristã, acolher, conhecer e praticar a Palavra de Deus que não nos deixa ficar fechados nos nossos problemas, nos nossos preconceitos, nas nossas infidelidades, mas que infunde uma luz nova na nossa vida, um novo vigor à nossa fé. Que espaço dou a leitura e meditação da Palavra de Deus em minha vida? Sou uma pessoa aberta, acolhedora da Palavra ou já tenho meus esquemas formados e estes nem Deus muda?
Na segunda parte do evangelho, Lucas apresenta o programa de vida de Jesus. De acordo com o evangelista, é o próprio Jesus quem seleciona uma passagem do profeta Isaías e lê as pessoas do seu povoado, para que possam entender melhor o Espírito que o anima, as preocupações que traz em seu coração e a missão que vai dedicar durante toda sua vida.
Interessante que o primeiro olhar de Jesus não se dirige aos pecados das pessoas, mas aos sofrimentos que impedem uma vida digna para todos: "(...) enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor" (v.18-19), ou seja, a primeira coisa que toca o seu coração é a dor, a exclusão, a humilhação que muitos padecem.
É nesta direção que todos nós, seus seguidores, devemos trabalhar. Jesus inaugurou um estilo de vida novo, inspirado no respeito e na misericórdia de Deus. Ele tocou os leprosos, curou em dia de sábado, acolheu os pecadores, comeu com os publicanos e fariseus, ninguém poderia sentir-se excluído do coração de Deus. Desta forma, seguir a Cristo hoje, significa prolongar a sua presença, seus gestos, seu compromisso com os mais excluídos, vítimas de toda a ganância humana. "Proclamar a libertação aos cativos" significa libertar as pessoas dos seus preconceitos, das estruturas injustas que afastam muitos de uma vida mais digna; "recuperar a vista aos cegos" significa comprometer-se com a verdade, ajudando os mais pobres a serem sujeitos da sua história, indicando caminhos de superação da miséria, da desigualdade, dando um novo sentido à vida destes privilegiados de Deus.
O Papa Francisco, presente na Jornada Mundial da Juventude no Panamá, no seu discurso ao corpo diplomático daquele país, ressaltou que é preciso um empenho diário de todos "contra qualquer tipo de tutela que pretenda limitar a liberdade e subjugue ou transcure a dignidade dos cidadãos, especialmente dos mais pobres". Em meio aos caminhos da história, a Igreja é chamada sempre a retomar o discurso programático de Jesus, vendo nele a inspiração para sua missão.
Façamos a nossa parte, sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

 

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