ANO: 25 | Nº: 6385

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
26/01/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Uma vida transformadora

Normalmente, a virada do ano não é nada mais, nada menos do que uma mera... virada do ano! Apesar de toda a expectativa, projetos e resoluções, a intenção de aproveitar a oportunidade para se transformar, mudar de rumo (e/ou de ramo), estabelecer novas metas, costuma ficar só na promessa e, muito mais cedo do que podíamos imaginar, a rotina se impõe e voltamos à realidade pré-réveillon sem que nada tenha mudado efetivamente.
Isso vale, em regra, para a esmagadora maioria dos mortais, mas este 2019 está proporcionando um fenômeno inédito neste século. Um momento lindo e significativo pela quantidade de pessoas envolvidas.
Gente que não se preocupava nem acreditava no sumiço de cifras fantásticas dos cofres públicos em sucessivos escândalos de corrupção em nível nacional e até internacional, de repente, do nada, passou a se preocupar até com movimentações financeiras atípicas de dois mil reais numa agência bancária da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Não é incrível? Que transformação! Que evolução!
Gente que não se escandalizava com o número recorde de homicídios no Brasil, que totalizou mais de meio milhão de mortos nos últimos dez anos, de repente, desde o réveillon, passaram a se escandalizar com qualquer morte que possa ser colocada direta ou indiretamente na conta das ações ou omissões governamentais.
Gente que nunca manifestou preocupação com arma na mão do bandido, mas agora protesta veementemente contra a mera possibilidade de colocar uma arma até na mão do mocinho.
Gente que nunca responsabilizou o governo federal pelas milhares de mortes de mulheres e gays que aconteciam todo ano, mas que, agora, acha que o governo federal tem responsabilidade por todo e qualquer feminicídio ou ato de homofobia. Impressionante, né?
Enfim, gente que quando podia fazer, não fez; quando podia protestar, não protestou; e quando devia reclamar, não reclamou, mas agora resolveu tirar o atraso e ainda quer que os outros façam aquilo que elas não fizeram, protestem por aquilo que elas não protestaram e reclamem daquilo que elas não reclamaram. Subitamente foram invadidas pelas forças astrais do novo ano e acordaram de uma longa hibernação ideológica onde ninguém sabia de nada, via nada, ouvia nada e falava nada. De repente passaram a saber de quase tudo, ver quase tudo, ouvir quase tudo e falar sobre quase tudo. Só não é tudo porque ainda sofrem de uma espécie de amnésia pré-réveillon.

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