ANO: 25 | Nº: 6209

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
28/01/2019 Caderno Minuano Saúde

Trabalho: vício ou paixão?

Foto: Divulgação

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Sabe quando sua vida gira em torno do trabalho 24 horas por dia? Sim, porque até sonhando, muitas vezes, o tema é trabalho. Sabe quando você desperta na madrugada e se vê checando e-mails ou WhatsApp dos grupos corporativos e a ideia não é mandar mensagem de bom dia? Sabe quando em 99% do tempo você pensa em como fazer melhor ou resolver alguma questão relacionada à sua atividade profissional? Sabe quando seus filhos resolvem sair da frente da TV, do videogame ou do computador e pedem sua atenção bem na hora em que você está tendo mais e mais ideias para solucionar aquele problema da empresa?

Nesta edição, a psicóloga, mestre em Gestão de Recursos Humanos e professora da Urcamp, Súsi Barcelos e Silva, responde essas questões.

Como tratar a relação entre vida e trabalho

Um misto de inquietação, irritabilidade e sentimento de culpa se misturam, conforme Súsi, porque a pessoa reconhece que não tem “pernas” ou “tentáculos” para dar conta de todas as “tarefas” de sua vida. Sim, você encara tudo como tarefas a serem resolvidas. Inclusive as férias tomam seu tempo porque você não pode ficar sem fazer nada, precisa de uma programação para se manter na ilusão de que está no controle da situação. “Afinal, tendo um planejamento tem o que avaliar, tem horário para cumprir, tem pouco tempo para pensar em nada. Ou em tudo? Embora a maioria da população aguarda ansiosamente pelo período de férias, o trabalhador compulsivo, também conhecido como viciado em trabalho ou workaholic, se envolve num emaranhado de atividades profissionais que são capazes de levar trabalho para as férias. Sim, a adrenalina que é liberada pelos inúmeros desafios e a satisfação em dominar uma área, uma especialidade ou até mesmo em bater metas gratifica tanto que não há espaço para a vida além do trabalho”, explica.

A psicóloga destaca que o problema aparece quando esse comportamento se torna disfuncional, afetando outras áreas da vida. “Normalmente, o alarme é acionado por alguém do núcleo familiar que não suporta sentir a ausência do outro em sua vida, porque mesmo que esteja presente nos eventos e programas familiares os pensamentos estão em outra dimensão”, exemplifica.

Embora muitas pessoas, viciadas em trabalho, sintam certo orgulho de serem chamadas de workaholics, esta condição não garante que o trabalhador seja mais produtivo. Um quadro de estresse pode ser desencadeado e o sujeito pode desenvolver doenças psicossomáticas, crises de ansiedade ou transtornos de humor, como a depressão. Afinal, não há tempo para atividades físicas e de lazer, nem mesmo para o convívio social. Muito pelo contrário, o sujeito é tomado por um sentimento de culpa por estar tendo momentos de prazer fora do ambiente de trabalho.

Como a compulsão por trabalho existe em função do prazer gerado ao bater metas, ser reconhecido ou simplesmente por se sentir útil e valorizado, frequentemente o sujeito não reconhece os sintomas compulsivos, complementa Súsi. “Dessa forma, a família tem papel fundamental para auxiliar na busca de ajuda. O tratamento psicológico, através da psicoterapia, deve ser a primeira opção no sentido de auxiliar o sujeito a descobrir o que está por trás da obsessão por trabalho e equilibrar sua vida pessoal e profissional. A busca por tratamento psiquiátrico e uso de medicação também pode ser indicado nesse caso”, declara.

Súsi acrescenta que a Escala Bergen de Vício em Trabalho ajuda a medir o comportamento, sentimento e atitudes em relação ao trabalho e pode ser uma ferramenta útil para identificar sintomas ligados ao vício em trabalho.

A escala de Bergen

Conta com sete critérios básicos para identificar vício em trabalho e situações têm frequência classificada como "nunca", "raramente", "às vezes", "frequentemente" e "sempre". Se você marcar "frequentemente" ou "sempre" em pelo menos quatro de sete situações, pode ser um workaholic.

● Pensa em como pode conseguir mais tempo para trabalhar;

● Passa muito mais tempo trabalhando do que pretendia originalmente;

● Trabalha para reduzir sentimentos de culpa, ansiedade, desespero e depressão;

● Já ouviu de outros para diminuir a carga de trabalho;

● Fica estressado se não consegue trabalhar;

● Sacrifica hobbies, lazer e exercício por causa do trabalho;

● Trabalha tanto que isso afeta sua saúde.

(fonte: https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-37962403)

Concluindo, a psicóloga diz que é importante saber diferenciar o workaholic do worklove. “Este último é apaixonado e totalmente envolvido pelo trabalho, por um projeto, focado e imerso no que faz porque tem autonomia e condições de administrar seu próprio tempo, inclusive se permitindo descansar e retomar as atividades quando sentir necessidade. Este sentimento de paixão pelo trabalho é ilustrado pela conhecida frase de Confúcio: “Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”, finaliza.

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