ANO: 25 | Nº: 6209
30/01/2019 Luiz Coronel (Opinião)

A verdade nua

1. A verdade nua
Por volta de 1896, Jean-Leon Gèrôme pintou "A Verdade Nua", retratando ríspida fábula. A mentira seduzira a verdade a banhar-se em uma tina de águas cristalinas. Aproveitando eventual distração, a mentira furtou as vestes da verdade e saiu a campear mundo afora. Coube à "verdade nua" quedar reclusa e permanecer distante, indesejada ao convívio das gentes.

2. Banho de chuva no mar
Corro pela praia tomando um banho de chuva no mar. É aquele doce-amargo que tem a vida. A salinidade que as ondas entregam e a doce pureza dos pingos de chuva sobre o rosto. Pouco importa que minha identidade vire um peixe no aquário e o celular se torne um escafandrista por três dias mergulhado em um quilo de arroz, para perder a umidade adquirida. Importa que eu tenha tido uma breve devolução de minha perdida juventude e, quem sabe, molhado dos pés à cabeça, lembrado outros banhos de chuva no mar que estavam ocultos sob as plúmbeas nuvens da memória.

3. Pirâmide
Um rosto diz bem mais do que uma pirâmide. Ele não reflete, tão só, o momento de uma vida. Ele é o tempo em nós, seu desenho, testemunho. Detenho-me ante o espelho, não qual Narciso ante as águas, mas sim como se eu mesmo fosse um cura de aldeia, que antes da penitência bem avaliasse os meus pecados e acertos, ciente que eles fazem parte, senão de minha purificação, pelo menos de meu adensamento enquanto pessoa.

4. Só
Estar só não significa distanciar-se das pessoas. É um momento duradouro ou transitório em nossas vidas. Convivemos com nossas memórias, dialogamos com nossos equívocos, tiramos felpas da alma e colocamos gerânios nos vasos. O mundo com suas unhas ou oferendas tem fragilizado seu poder de aprisionamento. Estamos livres, descalços, sem muros, contemplando as nuvens, lençóis que os deuses estendem nos pátios do céu.

5. Retrovisor
Quando o retrovisor revelar que existem belos feitos em tua memória, podes seguir viagem que irás colher bons frutos em teu caminho. E que sejam os sonhos os faróis a iluminar a estrada, cujo traçado tem às costas o passado, e, à frente, um futuro que se estende sobre linha do horizonte, onde o sol, ao entardecer, dança e se equilibra tendo nas mãos a branca sombrinha de uma nuvem clara.

6. Lucidez
A aflição não é boa companhia para a lucidez. Procure a verdade como quem atravessa a rua, olhando para os dois lados. Para os sectários, a verdade tem mão única. Para contrariar, a verdade tem oito faixas, embora o risco de sermos atropelados pelo acaso, pela imprevisão dos fatos, seja permanente.

 

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