ANO: 25 | Nº: 6404

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
31/01/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Brasileiro atípico

Um elogio. Foi dessa forma que o ex-jogador e atual técnico do Milan, Gennaro Gattuso, se referiu ao jogador Lucas Paquetá em meados deste mês. Para o treinador daquela equipe, o ex-atleta do Flamengo e que desembarcou recentemente na Itália, “é um brasileiro atípico. É um jogador que, no nível tático, é muito preparado. Ele é uma esponja, absorve tudo. [...] tem grande margem de crescimento”. Tal declaração foi feita logo após a estreia de Paquetá com a camisa de seu novo time, em duelo contra a Sampdoria.

Todavia, nem todos gostaram desse encômio. Nas redes sociais, a ESPN disse que Gattuso havia cutucado os brasileiros, além de questionar se esponja poderia ser considerada um elogio. Mas, ruídos virtuais nem sempre estão de acordo com a realidade. De fato, é bastante comum ver jogadores brasileiros apresentarem enormes dificuldades (falta de vontade?) para compreender e executar as determinações táticas e movimentações em campo, que os técnicos europeus tanto valorizam. São amplamente conhecidos e recorrentes os casos de atletas que “não dão certo” no Velho Continente por tais razões. Uma triste constatação que confirma um estereótipo genérico de inadequação àquele estilo de jogo. Os que se enquadram, permanecem e fazem sucesso. Os que não se adaptam, seguem jogando suas “peladas” profissionais.

Claro que o apontamento de Gattuso, ao mencionar que Paquetá não é comum em sua maneira de fazer leituras no sistema de jogo, não teve indícios discriminatórios contra brasileiros que não o fazem; é óbvio e ululante que se comportar como uma esponja, absorvendo e cumprindo o que é solicitado pelo comandante, é um dos primeiros passos para vencer em um esporte, o que constitui uma forma de valorizar o empenho do atleta a continuar aprendendo. A tentativa de polemizar da ESPN (com seus históricos “lacres” ativistas), não surtiu o efeito desejado, e a divulgação de suas manchetes não teve grande alcance.

No entanto, se o futebol é parte importante da cultura nacional, podendo ser classificado como “verdadeira instituição brasileira”, como bem atestou Gilberto Freyre (afinal, agrupou diversos elementos irracionais de nosso processo de formação social), a crítica do técnico do Milan serve para alguma reflexão. Afinal, não somos conhecidos como uma sociedade que encontra severas dificuldades para cumprir regras básicas nos mais diversos âmbitos de nossa vida? E nossa ideia de cidadania não compreende direitos como algo avesso a deveres? Ou não buscamos “jeitinhos” (exceções) para que possamos nos desincumbir daquilo que deve ser feito? Assim, não seria a maneira com que se vislumbra e se pratica o futebol uma forma de reprodução da vida que desejamos?

Gattuso foi preciso. Existem exemplos que corroboram sua afirmação. Como brasileiros típicos, temos dificuldades em cumprir regras, Como brasileiros típicos, imaginamos que o mundo deve se adaptar às nossas vontades. Como brasileiros típicos, em uma época politicamente correta, a ESPN achou atípica uma afirmação daquele calibre. O problema é que, pelo menos no ambiente virtual, boa parte dos brasileiros concordou com o que o treinador falou. Foram atípicos e comportaram-se como esponjas, absorvendo boas ideias críticas. Apesar do pessimismo nutrido por anos, estes podem ser tempos de significativas mudanças culturais.

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