ANO: 24 | Nº: 6161

Fernando Risch

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Escritor
01/02/2019 Fernando Risch (Opinião)

Política, meio ambiente, tragédias e futuro

A tragédia de Brumadinho, a irmã gêmea e muito mais brutal e catastrófica de Mariana, acendeu uma luz que transcende o vermelho para nossa sociedade. Mariana não bastou como evento disruptivo que traça uma linha no chão e delimita o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode acontecer. Necessitou que a tragédia se repetisse, com o sabor agridoce da impunidade para os executivos da Vale, para que então, só agora, resolvessem olhar para a questão com a devida seriedade.
 
Há pouco tempo, o Museu Nacional pegou fogo e ali, nas chamas, tivemos perdas materiais, não vidas. Mas destes materiais, perdemos a História, o valor inestimável e irrecuperável de saber de onde viemos e pra onde iremos. À época da tragédia, apontou-se que muitos outros museus pelo Brasil estavam na mesma condição do Museu Nacional: definhando por merrecas que pudessem pelo menos arrumar a fiação das tomadas. Dinheiro, este, não injetado pela política. O orçamento das reformas do Museu Nacional, por exemplo, era três vezes menor que o valor gasto para lavar os carros dos deputados federais.
 
Depois que a comoção assenta e baixa, esquecemos. O que mudou desde o incêndio? Precisaremos de um segundo para que os responsáveis tomem providências? Talvez. Não saberemos. Porque é assim que se tocam as coisas por aqui: empurra-se com barriga achando que nunca irá acontecer. Como Brumadinho, atestada em laudos como “fora de risco”. E se rompeu.
 
Muitos reclamaram da politização do debate sobre a tragédia, mas é nesse âmbito que ela deve ser levada. A política define nossas vidas, os rumos que iremos tomar. Se não levarmos esse debate para a política, estaremos removendo do debate os protagonistas das ações e os responsáveis, limando-lhes tais responsabilidades. Por que não há uma política mais rígida na fiscalização das barragens mineiras, por exemplo? Porque o lobby das mineradoras, com interesses mais econômicos do que sociais e ambientais, venceu a batalha na Assembléia de Minas, com a comoção sobre Mariana já baixa, na hora da aprovação do relatório da nova lei, em 2015. Lei, esta, nunca aprovada. O relator, João Vítor Xavier, do PSDB mineiro, disse à época: “Não tenho dúvida de que outras barragens vão se romper”. Ele estava certo.
 
Isso serve também para o presidente Jair Bolsonaro, que através das diretrizes do seu governo, encaminhará o país em uma direção. Bolsonaro se elegeu, dentre muitas coisas, com discursos contra o Ibama e sua fiscalização, afirmando que teríamos que flexibilizar leis ambientais para trazer desenvolvimento ao país. Para dar o tom do caminho para o qual o governo iria, o próprio ministro escolhido para a pasta do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é condenado por improbidade administrativa por favorecer empresas de mineração, em 2016, ao acolher mudanças nos mapas de zoneamento do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental do Rio Tietê, quando então secretário do Meio Ambiente de São Paulo, na gestão Alckmin.  
 
A Ricardo Salles cabe se entender com a Justiça, a Bolsonaro cabe mudar. Se a posição de campanha era essa, de frouxidão com licenças ambientais e fiscalização, o que se espera agora é que o presidente não mantenha esse discurso de ação frente a tantas tragédias e ao risco de novas. Há três dias, o deputado João Vítor Xavier repetiu o que disse, em tom mais severo: “Temos 400 bombas-relógio como esta (Brumadinho) armadas em Minas Gerais”.
 
Não precisamos repetir erros para aprender com eles. A política (e os políticos) define nosso cotidiano e isso nos impacta duramente, não é uma brincadeirinha de “minha ideologia é melhor que sua”. E nós, população, precisamos cobrar para que os responsáveis por tais tragédias, nos seus interesses obscuros do lucro pelo lucro, sejam presos, e cobrar dos mandatários do poder e da lei que haja rigidez na fiscalização e legislação de algo tão importante como o nosso meio ambiente e nossas vidas.

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