ANO: 25 | Nº: 6262

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
02/02/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Um jogo para o Partido Comunista

Acontece com alguns de estar procurando algo e, de repente, depara com o inesperado.
Aldo Rebelo, ex-ministro do governo Dilma, visitava a sala de troféus da Sociedade Esportiva Palmeira quando vê taça em que estava escrito “Homenagem do Movimento Unificador dos Trabalhadores”. Dizia com partida entre Corinthians e Palmeiras realizada em 13 de outubro de 1945. Curioso, investiga na imprensa, ouve testemunhas e historiadores sobre esse confronto inusitado descobrindo tratar-se de jogo realizado em benefício dos comunistas paulistas. Contextualizo.
É sabido que até a revolução russa de 1917 e depois dela até 1922 o movimento operário e sindicalista era dominado pelos anarquistas, principalmente pela imigração de italianos e espanhóis adeptos de Bakunin. Malatesta ou Proudhon, responsáveis por uma das maiores greves que a nação assistiu (1917), e adversários do marxismo emergente.
Em 25 de março de 1922 é fundado o Partido Comunista do Brasil que aos poucos domina o anarco-sindicalismo, atraindo inúmeros intelectuais como Jorge Amado, Monteiro Lobato, Dionélio Machado, Cândido Portinari, Zélia Gattai, Oscar Niemeyer, Rachel de Queiroz, Di Cavalcanti, Caio Prado Jr., Graciliano Ramos, e muitos outros. Sobretudo, mais adiante, pelo fascínio despertado por Luís Carlos Prestes, capitão do Exército, um dos líderes da Coluna que leva seu nome, senador da República, cognominado o Cavalheiro da Esperança. Anos depois, a grei passaria a chamar-se Partido Comunista Brasileiro, eis que a justiça eleitoral rejeitara seus estatutos. Em novembro de 1935 rebenta no Nordeste a denominada Intentona Comunista, precipitado e fracassado levante que levou muitos comunistas à prisão e tortura no Estado Novo varguista (1937- 1945).
O Partido Comunista foi para a clandestinidade pelo cancelamento de seu registro, mas no fim de seu governo Vargas concede anistia aos presos políticos e permite a reorganização partidária, inclusive a legalização do PCB. Em 1945 Vargas anuncia a realização de Constituinte através de eleições gerais, restabelecendo as relações diplomáticas com a União Soviética. O mundo, em guerra, era grato aos russos pela vitória sobre as divisões de Hitler. Carlos Drummond de Andrade dedica um poema a Stalingrado. Esse ambiente aumenta a influência dos comunistas junto aos trabalhadores. Obtendo a legalidade em julho de 1945, o PCB passou a concentrar também sua atividade na obtenção de recursos, para financiar as tarefas básicas, também pela desconfiança que a frágil democracia viesse a ruir.
Sucede que antes de obter sua franquia os comunistas fundaram o Movimento Unificador dos Trabalhadores- MUT-  em abril de 1945 para ser o braço sindical, promover a inclusão dos trabalhadores, inclusive os rurais, reunindo a classe numa central única, sendo a entidade dirigida por João Amazonas.
Durante as comemorações do Dia da Independência, realizadas no Estádio São Januário, do Vasco da Gama, o presidente Getúlio participa de um grande comício, quando, sob aplausos, ingressa uma comissão do MUT com a bandeira do movimento e recebida com aplausos, portando cartazes e palavras de ordem, como “Constituinte” e liberdade sindical”, tendo João Amazonas pronunciado discurso reiterando a confiança em Vargas para a Constituinte, sendo abraçado por ele.
Em reunião da diretoria do Sport Clube Corinthians, presidido por Alfredo Trindade, que houvera sido político pelo Partido Republicano, é apreciado ofício da entidade comunista solicitando a renda de um jogo, sendo aprovada a solicitação “sem quebrar a força dos dispositivos estatutários que mantém o clube alheio a questões político-partidárias”, segundo a ata da sessão. A proposta já havia sido bem recebida também pela

Federação Paulista de Futebol mercê do esforço de simpatizante conhecido como Pompa d ‘Oliveira. Era secretário da instituição o Dr. Ulisses Guimarães. O Palmeiras, que adotara esse nome por ser obrigado a suprimir a denominação Palestra Itália em vista da guerra, já havia concordado por instâncias do vice-presidente Leonardo Lotufo.
A partida, mais adiante conhecida como “O jogo vermelho”, realizou-se num sábado no Pacaembu. O Palmeiras trocara de técnico: saíra Del Debio (que foi treinador do Guarany FC), assumindo o gaúcho Osvaldo Brandão, que fez seus treinos à noite para que os atletas se habituasse com a garoa e a luz dos refletores. Apenas não jogaria Oberdan, “o goleiro das mãos gigantes”, que havia casado, tendo o alviverde sido escalado com Clodô, Caieira e Junqueira; Zezé Procópio, Túlio e Waldemar Fiúme; Gonzalez, Villadoniga, Oswaldinho, Lima e Canhotinho. Esse time me faz recordar a adolescência e meu time de botão que disputava o campeonato da zona na Marcílio Dias, em mesa de pedra do pátio da casa do Walfredo Macedo. Só que na minha equipe jogavam Oberdan e Turcão, esse no lugar de Junqueira.
O time do Parque São Jorge teve Bino, Domingos da Guia e Rubens (o titular Begliomini havia se contundido em jogo com a Portuguesa de Desportos); Palmer, Hélio e Aleixo; Cláudio, Milani, Servílio, Ruy e Hércules. O técnico era Alcides de Sousa Aguiar. Bino era o “Gato Selvagem”; Domingos, o “Divino Mestre”; Cláudio, revelado pelo Santos, que se tornaria o maior artilheiro do Corinthians, era o “Gerente”, tendo se filiado ao PCB; Servílio era o “Bailarino” e pai do jogador do mesmo nome do Palmeiras; Hércules era o “Dinamitador” pela potência de seus chutes.
A refrega teve ampla cobertura da imprensa e o estádio lotou. Embora os alvinegros abrissem o placar com gol de Servílio, o Palmeiras empata com Waldemar Fiúme e desempata com Lima. E o uruguaio Villadoniga, chamado “El Architeto” finaliza com um tiro indefensável. Palmeiras 3 x Corinthians 1. Renda 114. Cruzeiros. Em 1947, depois de eleger deputados e senadores, o PCB volta à clandestinidade.

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Fonte: “Palmeiras e Corinthians, 1945. O jogo vermelho”, de Aldo Rebelo, Editora Unesp, SP, 2010. Aldo Rebelo foi vereador, deputado federal pelo PCdoB, Ministro da Defesa; da Ciência e Tecnologia; e de Esportes. Presidente da Câmara dos Deputados e Chefe da Casa Civil em São Paulo. É palmeirense doente.

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