ANO: 25 | Nº: 6309

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
04/02/2019 Caderno Minuano Saúde

Desenvolvimento da fala em crianças com Transtorno do Espectro do Autismo

Foto: Divulgação

O Autismo é uma condição classificada, no Manual de Diagnóstico Estatístico dos Transtornos Mentais 5° (DSM-V), como pertencente à categoria denominada Transtornos de Neurodesenvolvimento, recebendo, assim, o nome de Transtornos do Espectro do Autismo (TEA). Nesse sentido, o TEA é definido como um distúrbio do desenvolvimento neurológico, que deve estar presente desde a infância, apresentando déficits nas dimensões sociocomunicativa e comportamental.

Para o diagnóstico do TEA, não há um marcador biológico ou exames específicos, sendo realizado de maneira clínica através de observações e avaliações com neuropediatra ou psiquiatra e equipe multidisciplinar que ao suspeitar poderá utilizar instrumentos específicos para detecção, como, por exemplo, CARS, M-Chat, PROTEA-r dentre outros instrumentos.

Após o diagnóstico, o médico irá encaminhar o paciente para o tratamento terapêutico adequado, de acordo com as necessidades apresentadas e as particularidades de cada criança. Dentre esses, estão fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeuta, psicólogos comportamentais, psicopedagogos especializados, musicoterapeutas, equoterapeutas, entre outros.

Nesta edição, a fonoaudióloga Cíntia Cristina Cezar Lazzare, especialista em autismo e atendimento clínico e ambulatorial para pessoas com TEA, e a fisioterapeuta, Simone Rosa da Silva, mestranda em Educação com ênfase em Educação Inclusiva e Transtorno do Espectro do Autismo, e professora do curso de Fisioterapia da Urcamp, abordaram o tema proposto.

Página 2 e 3 - Transtornos do Espectro do Autismo

O TEA envolve um conjunto de transtornos neurodesenvolvimentais de causas desconhecidas, caracterizado por dificuldades de interação e comunicação que podem vir associadas a alterações sensoriais, comportamentos estereotipados e/ou interesses restritos. Sua manifestação é muito diversa e seus sinais, embora comumente presentes na infância, podem surgir somente quando as demandas sociais extrapolarem os limites de suas capacidades.

Segundo as especialistas, entre as características de comunicação no TEA, destaca-se o uso limitado de comunicação não verbal, como contato visual, expressões faciais, gestos e linguagem corporal. Ou seja, é comum a criança não responder ao chamado pelo nome ou a um gesto de tchau, do mesmo modo que as brincadeiras simbólicas como o” brincar de faz de conta” encontra-se pouco presente ou até ausente, demonstrando dificuldades em compartilhar experiências sociais ou emocionais com os outros.

Crianças com déficits no repertório comunicativo, como aquelas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), apresentam limitações nas oportunidades de interação social, gerando dificuldades para que tenham acesso às suas necessidades mais básicas, como, por exemplo, demonstrar para o ouvinte se ela tem sede ou o que prefere comer, o incentivo à comunicação é essencial para o desenvolvimento social e cognitivo de indivíduos com TEA que, geralmente, apresentam disfunções nos aspectos comunicativos de fala e linguagem, explicam as duas profissionais.

O déficit no desenvolvimento das habilidades comunicativas é evidente nos autistas. A preferência por sons não verbais e balbucio tardio são características comuns observadas nessas crianças que, quando comparadas a crianças com desenvolvimento típico são menos responsivas a comandos verbais e tendem a responder com menor frequência ao próprio nome. “Os prejuízos comunicativos observados no autismo podem ser minimizados pelo uso da Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) , pois esta contempla uma ampla variedade de técnicas e de procedimentos que auxiliam o desenvolvimento da fala ou linguagem, ou até mesmo substituem a linguagem oral comprometida ou ausente por meio do uso de recursos gráficos, visuais e/ou gestuais”, ressalta Cíntia.

Simone, por sua vez, relata que, atualmente, existe uma diversidade de métodos de CAA, dentre os sistemas de símbolos, ou seja, os que utilizam objetos concretos, fotografias, alfabeto, além de outros conjuntos de símbolos gráficos com o propósito de representar objetos, pessoas, sentimentos, ações e frases sociais, dentre estes encontra-se o Picture Exchange Communication System (PECS) - Sistema de comunicação por troca de figuras, que é um sistema bastante utilizado na prática clínica em indivíduos com autismo e/ou outras dificuldades de comunicação, devido ao seu baixo custo e fácil acesso por meio de terapia específica com profissional habilitado.
“O método ressalta a relação interpessoal entre a criança com dificuldades de fala e o terapeuta, por meio de trocas de figuras. O programa tem seus pressupostos teóricos apoiados na Análise do Comportamento, que considera a linguagem como um comportamento a ser aprendido como qualquer outro, adquirido no momento em que a criança desenvolve a maturação comunicativa. O contexto estruturado e o uso de estímulos concretos (figuras) proposto pelo PECS favorecem a rápida aprendizagem do sistema e desenvolvimento comunicativo da criança”, enaltece fisioterapeuta.

Cíntia completa ao expor que tal sistema foi desenvolvido por Bondy e Frost, em 1985, nos Estados Unidos, para crianças com TEA e com déficit severo na comunicação oral. A principal vantagem, em relação ao PECS, é a sua simplicidade, pois o método não necessita de materiais muito complexos e consiste em uma abordagem relativamente fácil para aprender, tornando-se assim mais acessível à familiares e profissionais que trabalham com a criança autista. “Além disso, proporciona maior autonomia à criança, uma vez que lhe oportuniza escolher a figura para se comunicar, e favorece um dos maiores pontos positivos do autista que é a percepção visual”, completa.

As profissionais ainda destacam que, na proposta do Método PECS, a comunicação funcional é a capacidade de emitir uma mensagem compreensível ao interlocutor, seja ela verbal ou não verbal. A importância da aplicação de ferramentas de avaliação e tratamento na área da linguagem permitem à criança maiores ganhos do desenvolvimento comunicativo e consequente autonomia social, em todos os locais em que estiver inserida. E ainda, que na proposta do Método PECS, a comunicação funcional é a capacidade de emitir uma mensagem compreensível ao interlocutor seja ela verbal ou não verbal.
A rápida aprendizagem das habilidades envolvidas no PECS ocorre devido ao contexto estruturado e concreto desse treino, que facilita a compreensão da comunicação funcional pelos indivíduos com autismo. Muitos estudos mostram que quanto mais concreta (com mais características físicas), estruturada e específica for o tipo de dica, melhor e mais rápido é o aprendizado de habilidades comunicativas de crianças autistas. Afirmando que a utilização deste método não prejudica o desenvolvimento das habilidades de comunicação oral e fala, sendo que pelo contrário, oferece apoio concreto para a organização e formulação do pensamento para adquirir a oralidade.

 

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