ANO: 25 | Nº: 6255

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
06/02/2019 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

Brumadinho não é tão longe

Há menos de 15 dias, o Brasil viveu estupefato mais uma trágica manifestação da irresponsabilidade e da negligência, com o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais. Lá, uma das maiores empresas brasileiras, a Vale do Rio Doce, minera ferro a céu aberto e mantém um conjunto de barragens com os rejeitos da mineração.
Já havíamos vivenciado o mesmo crime, há três anos, na cidade de Mariana, no mesmo Estado. Agora, entretanto, o número de vítimas é muito maior e o impacto da criminosa tragédia, por óbvio, muito superior. O próprio governo federal mudou rapidamente o seu discurso sobre a liberalização da licenças ambientais, política que, como se sabe, é prática comum na trajetória de gestor do atual ministro do Meio Ambiente.
As duas tragédias, ocorridas em pouco mais de três anos, deveriam fazer os brasileiros, principalmente aqueles que têm poder de determinar as políticas do país, a repensar completamente a questão da mineração. Sabemos que o lobby favorável aos interesses das grandes mineradoras é muito forte no Congresso e mesmo nos estados, responsáveis pela autorização dos projetos específicos. Mas esse lobby não pode ser mais poderoso do que a defesa da vida.
A mineração é, de fato, uma atividade econômica importante no Brasil, representando algo em torno de 10% do PIB do país. Mesmo assim, ela não pode estar acima do bem-estar dos brasileiros, principalmente aqueles que são afetados diretamente por ela, como funcionários da empresas e moradores das cercanias das minas.
Por isso, o fundamental é que qualquer projeto de mineração seja submetido a um rigoroso teste de sustentabilidade social e ambiental, sem o qual não tem qualquer sentido, mesmo que possa render milhões de dólares para os empresários. Vejam; se a mineração fosse a "salvação da lavoura", o estado de Minas Gerais, que já traz no nome sua vocação mineradora, estaria em condições financeiras muito diferentes da que está, com déficits estruturais em suas contas, o que fez o governador eleito de lá, do Partido Novo, dizer que o estado encontrava-se em situação falimentar.
Por esses motivos é que precisamos ampliar ao mundo a voz que já se faz alta e persistente aqui pelas bandas de Bagé e da região, contra o projeto que pretende minerar chumbo, cobre e outros metais pesados às margens do nosso rio Camaquã. O conglomerado responsável pelo projeto diz que aqui não haverá barragem e que não correremos os mesmos riscos de Mariana e Brumadinho. Entretanto, o que sabemos é que haverá água captada do rio para a lavagem do minério e que esta água voltará ao rio ou imediatamente ou nos momentos em que houver chuva.
O projeto Caçapava, infelizmente, retirará água do rio num montante de volume que poderá chegar a 150 metros cúbicos por hora, o que significa o mesmo volume necessário para abastecer toda a cidade de Caçapava, que consome cerca de 155 metros cúbicos por hora.
Assim, é evidente que a qualidade e sanidade das águas do Camaquã estará em risco e a tragédia, ao contrário das ocorridas nas cidades mineiras, será permanente e parcelada, de forma que quando a percebermos já não haverá mais nada para ser feito, além de ouvirmos o choro dos prejudicados, nós entre eles, já que o Camaquã é o principal rio preservado que corta nossas terras desde remotas gerações.
Queremos um Camaquã vivo porque ele representa a vida de muitos da nossa comunidade e representa, também, sendo preservado, uma excelente oportunidade para negócios sustentáveis de todos os tipos, capaz de trazer bem estar e desenvolvimento para a nossa região.

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