ANO: 25 | Nº: 6280

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
09/02/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Notas sobre as Charqueadas de Bagé

"Encarreguei a João Antônio Rozado morador em Bagé a compra de 300 ou 500 ovelhas: se ele as mandar, receberá e passará recibo". Assim começava bilhete de João Francisco Vieira Braga, o Conde de Piratini e proprietário da Estância da Música, enviado a seu capataz João Fernandes da Silva, em 28 de julho de 1832.
Essa estância, segundo processo de justificação de sesmaria, tinha cerca de cinco léguas quadradas, situando-se no ocidente do Rio Santa Maria confrontando com a Barra do Vacaiquá; ao sul, com vertentes que desaguam na cabeceira do mesmo Vacaiquá e outra em galho do Pamariti, limitando-se ao oeste com o mesmo. Conta Guilhermino César que Vieira Braga faleceu em Pelotas, em 1887, tendo amontoado grande fortuna em estâncias, charqueadas, casas de negócio, não recusando "vaidosos tostões para a filantropia". Há no Arquivo Histórico do Estado documento de venda de 2.830 reses da Estância da Música, com registro fiscal em Bagé.
A referência é um prefácio para afirmar que outrora o município foi pujante e quase supremo no abate de gado e número de charqueadas, principalmente depois que se inaugura a estrada de ferro para o porto de Rio Grande, construída graças a Silveira Martins; e que permitiu o escoamento diverso que Uruguaiana, Quaraí, Livramento e São Borja, dominados pelos saladeiros anglo-platinos, que usavam os portos do Prata, segundo revela Alvarino Fontoura Marques, em obra seminal sobre o ciclo do charque.
Como sabido coube a Antônio Nunes Ribeiro de Magalhães, um português antes radicado em Pelotas, e futuro Visconde Ribeiro de Magalhães, estabelecer a primeira charqueada em Bagé (1897), que chamou de "Santa Thereza", a sete quilômetros da cidade – a que se ligaria, mais tarde, por uma avenida de eucaliptos denominada por ele como "Boulevard 16 de Outubro, aniversário da esposa Thereza Pimentel Magalhães - e à margem do arroio Quebrachinho, local que seria inspiração para o romance de Pedro Wayne. A inauguração, em 21 de fevereiro de 1897, teve a presença de mais de trezentas pessoas, conduzidas por um trem expresso. A bênção foi procedida pelo Cônego Bittencourt, vigário da paróquia. Foram padrinhos coronel Carlos Maria da Silva Telles - militar que resistiu ao Cerco de Bagé e comandante em Canudos - e sua esposa, dona Etelvina; o coronel Antônio Barbosa Neto; o capitão Serafim dos Santos Souza (primeiro poeta de Bagé); e Manoel Gomes de Azevedo. Foi orador o médico Ângelo Dourado, que escreveria o clássico " Voluntários do Martírio" sobre a Revolução de 1893. Além da bebida foi servida, abundante "mesa de assados", segundo registra Elizabeth Macedo Fagundes.
Santa Thereza, além do expressivo número de trabalhadores, habitantes de uma vila para eles especialmente organizada, tinha energia própria, armazém de abastecimento, restaurante, sapataria, barbearia, alfaiataria, serraria, capela (Santa Thereza), sociedade beneficente, hospital, colégio e um teatro (Santo Antônio), onde se encenavam operetas e espetáculos assistidos pela sociedade bajeense que ali chegava em trem. Estrutura econômica e social que encantaria liberais e socialistas.
As empresas do Visconde, segundo anota Cláudio Boucinhas, na primeira safra teve um total de 40.000 reses abatidas, passando a 45.000, quando anexada a Charqueada Industrial, atingindo a impressionante cifra de 94.600 reses. Ali operavam de 470 a 500 trabalhadores com salários que chegavam a 30.000$00 mensais, tão altos como os melhores do estado, esses um dos maiores do país.
Em 1902, surge a Charqueada São Martim (ou Martinho), à margem esquerda do Piraisinho; no mesmo ano a Charqueada São Domingos, de grandes proporções e 255 empregados, localizada pouco adiante, além do Piraisinho; em 1904, a Charqueada Santo Antônio, pertencente à firma Guilayn & Cia, depois ao Visconde Ribeiro de Magalhaes, a quem se associara a firma britânica "Anglo- Brazilian Meat Co", em 1916, com o fito de atingir ao mercado europeu de carnes congeladas. Para tanto, passou a chamar-se Industrial, sendo adaptada para ser um frigorífico. A famosa empresa Lever Brothers intentou até se associar para ali fabricar também sabonete.
Em 1927, tendo assumido a dívida de filhos o Visconde transfere muito de seus bens para os bancos credores, entre eles Santa Thereza: em 1940 a empresa adota outra modelagem sob a gestão de Rodolfo Moglia, segundo conta a historiadora Fernanda Codevilla Soares; e sobrevive até os anos 60, agora mantida por filhos e genros de Rodolfo, falecido em 1955. O imóvel, posteriormente, é adquirido por Nei Mário Carneiro, que ali instala uma fábrica de artefatos de cimento.
Em 1920 e 1932, Bagé era o segundo centro saladeril do Estado, abatendo 17,8% das matanças no Rio Grande. Em 1932 acontece marco importante em 1932, momento de dificuldades para a pecuária, com a fundação da "Sociedade dos Fazendeiros de Bagé", inicialmente com 10 associados, com a finalidade de proporcionar melhor condição aos fazendeiros como abatimento por conta própria e negócios diretos com os mercados compradores, evitando a intermediação dos charqueadores; e que, naquele ano, começou os abates na Charqueada Santo Antônio. A sociedade chega a ter 76 sócios, encerrando sua atividade em 1944. Ali se destacaram dirigentes como Manoel Athayde, Rodolfo Moglia e seu filho José Carrion Moglia, além de outros.
Narra Alvarino que em 1937 funcionavam nove estabelecimentos de industrialização de carne de Bagé, ou seja, as charqueadas Santa Thereza, já de Rodolfo Moglia e Cia Ltda.; Santo Antônio, de José Gomes Filho; São Domingos, agora do Banco da Província, mas arrendada a João Suñe e Cia Ltda., mais tarde transformando-se na Cooperativa de Carnes e Derivados; São Martinho, do Tesouro do Estado e arrendada a Serafim L. Gomes; Industrial Bageense, também pertencente ao Tesouro estadual e arrendada à Sociedade dos Fazendeiros; São Geraldo, também do Banco da Província e de José Gomes Filho, locada a Edmundo Correa; Progresso dos Criadores, de propriedade do Tesouro, e bancos da Província e Comércio, arrendada a Gallo & Santos; Santa Alice, de Leopoldo Fayet e Cia., arrendada a João P. Brites; e Fábrica de Línguas em Conserva, de Mac Coll e Cia., que tinha também congêneres em Pelotas e Tupanciretã.
Entre 1973 a 1983, impressionavam os abates da Charqueda Domingos, Frigorífico Bordon e a Cicade (Cooperativa Industrial e Regional de Carnes e Derivados), essa com a expressiva cifra de 93.972 cabeças (1983), apenas perdendo para a Swift-Armour, de Livramento.

Fontes: 1. "O Conde de Piratini e a Estância da Música", de Guilhermino Cesar, Universidade de Caxias, 1978. 2. "Episódios do Ciclo do Charque", de Alvarino da Fontoura Marques, Edigal, 1987. 3. "Vila de Santa Thereza", de Elizabeth Macedo Fagundes, trabalho não editado, 1999. 4. "A História das Charqueadas de Bagé (1891-1940) na Literatura", de Cláudio Antunes Boucinhas, dissertação de Mestrado, PUCS, 1993. 5. "Santa Thereza: um Estudo sobre as Charqueadas na Fronteira Brasil- Uruguai", de Fernanda Codevilla Soares, dissertação de Mestrado, UFSM, 2006.

 

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