ANO: 25 | Nº: 6405

Fernando Risch

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Escritor
15/02/2019 Fernando Risch (Opinião)

Haja ansiolítico para lidar com o aleatório

Se você for um leitor regular das sextas-feiras, desta página específica, além de abobrinhamentos óbvios corriqueiros que me resumo a dissertar como um simulacro de especialista, você deve pensar que meus problemas mentais necessitam urgentemente de um tratamento psicoterápico. O fato é que, como muitos e muitas por aí, eu sofro constantemente com picos de ansiedade. Dos fatores que me aplacam, sejam os problemas cotidianos laborais, seja meu alcoolismo moderado, nenhum deles me soca com tanta força o estômago quanto as aleatoriedades da vida a qual estamos expostos.

Vivemos em sociedade, sob a égide do contrato social ao qual nos propusemos a respeitar e temos a falsa sensação de segurança de que o parafuso que cai do céu, desprendido da lataria do avião, jamais nos cairá à cabeça, vitimando vida e pensamento. Esse falso senso de segurança é o que nos faz sair diariamente à rua, de cabeça erguida, pensando em problemas servis sem se preocupar com o tigre escondido atrás da moita, pronto para o bote.

Neste arrastar de tragédias, de Brumadinho, ao CT do Flamengo, até chegarmos ao acidente de helicóptero que vitimou o inigualável Ricardo Boechat, o cotovelo da realidade nos atinge às fuças e nos avisa que, sim, estamos suscetíveis ao aleatório, à ciranda do caos que ceifa vigor e histórias sem pedir licença e que ataca no momento de guarda abaixa. Um ansioso, como eu, não aguenta criar hipóteses pensando no próximo dobrar de esquina.

Assisto Mercedes Carrascal, de 86 anos, mãe de Boechat, falar sobre o filho. Depoimento com caráter, de uma mulher forte, que não necessitava passar em vida por nada disso. Penso no que ela pensou naquela manhã, antes de se levantar. Penso no que Ricardo Boechat pensou ao sair da cama. O que nós pensamos todos os dias? Que tudo vai acabar bem.

Já escrevera William Blake, o gênio, antes da era dos ansiolíticos manipulados, para afagar as próprias angústias frente ao aleatório do mundo, nas Canções da Experiência: "Tygre, tygre, em fogo ardendo / Nas florestas, noite adentro / Que olho ou mão imortal poderia / Forjar temível simetria?".

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