ANO: 25 | Nº: 6381

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
16/02/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Frita uma linguiça que eu já volto!

A sabedoria popular diz que a vida é um sopro. Meu pai traduzia isso falando na "hora boba" para descrever aquele momento em que o mínimo descuido é suficiente para causar grandes estragos ou até mesmo terminar com a nossa vida em um simples estalar de dedos. Quando jovens, temos mais dificuldade de entender essa fragilidade da nossa existência, mas aos poucos, mais cedo ou mais tarde, todos acabamos compreendendo isso. No meu caso, colaborou muito para esta compreensão, ter assistido uma pequena cena da primeira versão da minissérie "O tempo e o vento" quando o Capitão Rodrigo, interpretado por Tarcísio Meira, disse para Bibiana, interpretada por Louise Cardoso, fritar uma linguiça que ele voltaria em breve.

Como eu não tinha lido a obra de Érico Veríssimo, não sabia que, logo após dizer aquilo, o personagem morreria num confronto com um desafeto. Além de marcante, para mim, a cena foi surpreendente, pois tirava de cena o personagem que protagonizava o melhor terço da trilogia, deixando a sensação de que o restante da estória ficaria sem graça como, de fato, ficou.
Todavia, só o brilhantismo de Érico Veríssimo poderia conseguir colocar numa frase singela a casualidade da morte que chega sem aviso e muda até os planos em andamento. E pouca coisa traduz melhor um plano em andamento do que o rápido preparo de uma linguiça frita. Ora, se a morte interrompe planos como esse, o que dizer dos grandes planos futuros?
Essas interrupções são, em suma, a principal lamúria dos enlutados, sobretudo nestas mortes inesperadas, de pessoas jovens como os atletas da base do Flamengo ou mesmo de pessoas adultas ou mais velhas como as centenas de mortos em Brumadinho ou do talentoso Ricardo Boechat, só para ficar com as mortes recentes que chocaram a opinião pública.
Um início de ano com uma incrível sucessão de tragédias, ligadas, também, pela inconsequência de seus causadores, foi tão pródigo na interrupção de sonhos e projetos que relembrei da frase de Érico Veríssimo e fiquei pensando em fazer um paralelo com tantos dramas reais e contemporâneos. Entre tantas histórias emocionantes, duas me chamaram especial atenção. A do menino Christian, do Flamengo, que ficou no alojamento por solidariedade ao Arthur, companheiro de time que faria 15 anos no dia seguinte. Ele poderia ter ido para casa, mas não foi, só para não deixar o amigo sozinho em um dia tão significativo. Nem precisamos ficar especulando sobre os grandes sonhos de uma carreira de sucesso no futebol que certamente ambos nutriam, mas sim de um pequeno desejo imediato de celebrar juntos um aniversário e que não se realizou em função da morte precoce e estúpida de ambos.
Contudo, a despedida de Ricardo Boechat no programa de rádio, horas antes do acidente com o helicóptero que lhe transportava, traduziu muito bem esse mesmo sentimento despertado em mim pela frase da obra de Érico Veríssimo décadas atrás. Ele disse: "Amanhã, eu estou de volta às sete e trinta da matina." Assim como no caso do Capitão Rodrigo, não teve volta, simplesmente porque não teve amanhã! De fato, a vida é um sopro!

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...