ANO: 25 | Nº: 6312

José Artur Maruri

josearturmaruri@hotmail.com
Colaborador da União Espírita Bajeense bagespirita.blogspot.com.br
16/02/2019 José Artur Maruri (Opinião)

O papel do espiritismo

Em janeiro de 1863, a Revista Espírita, editada por Allan Kardec, resolveu publicar a seguinte pergunta de um leitor com a respectiva resposta professor lionês, em esclarecimento histórico sobre o espiritismo, in verbis:
"A pergunta que se segue nos foi enviada por uma pessoa de Bordeaux, a quem não temos a honra de conhecer, e sua resposta será dada pela Revista, tendo em vista a instrução de todos.
Pergunta: "Li numa de vossas obras: 'O Espiritismo não se dirige àqueles que têm uma fé religiosa qualquer, com vista a dissuadi-los, e aos quais essa fé basta à sua razão e à sua consciência, mas à numerosa categoria dos indecisos, dos incrédulos, etc.'
"E por que não? O Espiritismo, que é a verdade, não deveria dirigir-se a todos? a todos os que estão em erro? Ora, os que creem numa religião qualquer, protestante, judaica, católica ou outra qualquer, não estão em erro? Indubitavelmente, porque as diversas religiões hoje professadas dão como verdades incontestáveis e nos obrigam a crer em coisas completamente falsas ou, pelo menos, em coisas que podem até vir de fontes verdadeiras, mas falseadas em sua interpretação. Se está provado que as penas são apenas temporárias – e Deus sabe se é um leve erro confundir o temporário com o eterno – que o fogo do inferno é uma ficção e que, se em vez de uma criação em seis dias, trata-se de milhões de séculos, etc.; se tudo isto está provado, digo eu, partindo do princípio de que a verdade é una, as crenças oriundas de uma interpretação tão falsa desses dogmas não são nem mais nem menos do que falsas, pois uma coisa é ou não é; não há meio termo.
"Por que, então, o Espiritismo não se dirige também a todos os que acreditam em absurdos, para os dissuadir, como aos que em nada creem ou que duvidam etc?"
Resposta: Aproveitamos a oportunidade da carta, da qual extraímos as passagens acima, para lembrar, uma vez mais, o objetivo essencial do Espiritismo, sobre o qual o autor da carta não parece bastante edificado.
Pelas provas patentes que dá da existência da alma e da vida futura, base de todas as religiões, o Espiritismo é a negação do materialismo e, por conseguinte, se dirige aos que negam ou duvidam. É bem evidente que os que não creem em Deus e na alma não são católicos, nem judeus, nem protestantes, seja qual for a religião em que tiverem nascido; não seriam, sequer, maometanos ou budistas. Ora, pela evidência dos fatos, são levados a crer na vida futura, com todas as suas consequências morais; são livres para adotar, mais tarde, o culto que melhor lhes convenha à razão ou à consciência. Mas aí se detém o papel do Espiritismo; ele é o responsável por três quartos do caminho; ajuda a transpor o passo mais difícil – o da incredulidade. Compete aos outros fazer o resto.
"Mas" – poderá dizer o autor da carta – "e se nenhum culto me convier?" Muito bem! ficai então como estais. Aí o Espiritismo nada pode. Ele não se encarrega de vos fazer abraçar um culto à força, nem de discutir para vós o valor intrínseco dos dogmas de cada um: deixa isto à vossa consciência. Se o que o Espiritismo dá não vos basta, buscai, entre todas as filosofias existentes, uma doutrina que melhor satisfaça às vossas aspirações.
Os incrédulos e os indecisos formam uma categoria muito numerosa. Quando o Espiritismo diz que não se dirige aos que têm uma fé qualquer, e aos quais esta é bastante, quer significar que não se impõe a ninguém e não violenta consciência alguma.
Dirigindo-se aos incrédulos, chega a convencê-los por meios próprios, pelos raciocínios que sabe terem acesso à sua razão, porquanto os outros foram impotentes. Numa palavra, tem o seu método, com o qual obtém, diariamente, belíssimos resultados; mas não tem uma doutrina secreta. Não diz a uns: abri os ouvidos, e a outros: fechai-os. A todos fala pelos seus escritos e cada um é livre de adotar ou rejeitar sua maneira de encarar as coisas. Desse modo, faz crentes fervorosos dos que eram incrédulos. É tudo o que ele quer. Àquele que dissesse: "Tenho minha fé e não quero mudá-la; creio na eternidade absoluta das penas, nas chamas do inferno e nos demônios; continuo até crendo que é o Sol que gira, porque a Bíblia o diz, e creio ser este o preço de minha salvação", responde o Espiritismo: "Conservai as vossas crenças, já que elas vos convêm; ninguém procura vos impor outra; eu não me dirijo a vós, pois nada quereis de mim." E nisto ele é fiel ao seu princípio de respeitar a liberdade de consciência. Se alguns se julgam em erro, são livres para buscar a luz, que brilha para todos; os que se julgam certos têm liberdade de desviar o olhar.
Mais uma vez, o Espiritismo tem um objetivo, do qual não quer nem se deve afastar; sabe o caminho que a ele deve conduzir e o seguirá, sem se desviar pelas sugestões dos impacientes. Cada coisa vem a seu tempo; querer ir muito depressa é, muitas vezes, recuar ao invés de avançar.
Ainda duas palavras ao autor da carta. Parece-nos que ele fez uma falsa aplicação do princípio de que a verdade é una, concluindo daí que certos dogmas, como o das penas futuras e da Criação, receberam uma interpretação errada, devendo, pois, tudo ser falso na religião. Não vemos todos os dias as próprias ciências positivas reconhecerem certos erros de detalhes, sem que, por isso, a Ciência esteja radicalmente errada? A Igreja não se alinhou com a Ciência a propósito de certas crenças de que outrora fazia artigos de fé? Não reconhece hoje a lei do movimento da Terra e dos períodos geológicos da Criação, que havia condenado como heresias? Quanto às chamas do inferno, toda a alta teologia reconhece que é uma imagem e que por ela se deve entender um fogo moral e não material. Sobre vários outros pontos as doutrinas são também menos absolutas do que antigamente, donde se pode concluir que um dia, cedendo à evidência dos fatos e das provas materiais, ela compreenderá a necessidade de uma interpretação em harmonia com as leis da Natureza, sobre alguns pontos ainda controvertidos; porque nenhuma crença poderia racionalmente prevalecer contra essas leis. Deus não pode contradizer-se estabelecendo dogmas contrários às suas leis eternas e imutáveis, e o homem não pode pretender colocar-se acima de Deus, decretando a nulidade dessas leis. Ora, a Igreja, que compreende esta verdade para certas coisas, compreendê-la-á também para as outras, notadamente no que concerne ao Espiritismo, em todos os pontos fundado sobre as leis da Natureza, ainda mal compreendidas, mas que se compreende cada vez melhor à medida que os dias passam.
Não se deve ter pressa em rejeitar tudo, apenas porque certas partes são obscuras ou defeituosas (...)".
(Referência: Allan Kardec. Revista Espírita. Janeiro de 1863,. FEB Editora. p. 36-38)

José Artur M. Maruri dos Santos
Trabalhador da União Espírita Bajeense - Caminho da Luz
bagespirita.blogspot.com
josearturmaruri@hotmail.com

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