ANO: 25 | Nº: 6378

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
21/02/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Declaração antropofágica

O vírus do politicamente correto, inoculado com maestria pelos higienistas artífices da (des)ordem social, conseguiu transformar a verdade em ofensa. Em uma época de ressentidos, repleta de estímulos relativistas, quanto mais o argumento se aproxima da órbita da veracidade, maior é o grau do vitupério. Com isso, uma afirmação que rompe com os cânones progressistas funciona como um pedaço de carne atirado a uma faminta matilha.

Tão logo foi noticiado que o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, disse que “o brasileiro viajando é um canibal”, instaurou-se uma verdadeira cirandinha de sensibilidades entre os que se afetam com duras afirmações. A declaração, concedida à Revista Veja, em 01/02/2019, fez parte de um contexto em que o ministro defendia o retorno de perspectivas pedagógicas que orientassem os indivíduos para a cidadania. Ao especificar como os brasileiros se comportam de maneira predatória em viagens, Vélez afirmou: “Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião. Traz tudo de lembrança. Ele sai da porta de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”.

Dias após, em 06/02/2019, o deputado socialista Alessandro Molon anunciou que protocolou um requerimento (que ainda precisa ser votado) reunindo 176 assinaturas para que o ministro seja obrigado a prestar esclarecimentos sobre suas “polêmicas” frases ao Plenário da Câmara: “São declarações inaceitáveis para um ministro da Educação. Alguém que nasceu em outro país e exerce um cargo tão alto no nosso não pode desferir um ataque tão grave à honra dos brasileiros”, disse Molon. Por fim, Vélez foi alvo de uma interpelação criminal no Supremo Tribunal Federal, instruída pelo advogado Marcos Aldenir Ferreira Rivas. Nessa peça processual, o autor pede que o ministro nomeie “quem é o brasileiro canibal, que rouba hotéis, salva-vidas de aviões e sai de casa carregando tudo”; afinal, Vélez teria cometido os crimes de calúnia, difamação e injúria. Finalmente, em 18/02/2019, pelo Twitter, o ministro pediu desculpas a quem se ofendeu e externou amor pelo Brasil.

Mas somos canibais no sentido de Vélez? Tive algumas experiências em viagens ao exterior. Ao término dos deslocamentos de avião, majoritariamente ocupado por brasileiros, era flagrante a sujeira deixada no interior daquele meio de transporte. Já em terras estrangeiras, era recorrente ver a catástrofe comportamental em público: falta de educação é um termo educado. No meu raio de visão, não passaram despercebidos pequenos atos de subtração de bens alheios (justiça seja feita: assentos salva-vidas não!). O desrespeito às regras é algo que salta aos olhos. E salta tanto que os “nativos” dos países visitados possuem uma visão “tribal” de nossa realidade. E tudo isso é bem conhecido. Talvez alguns achem tudo normal.

Todavia, negar os desvios é indecoroso e prejudica o processo de aprimoramento. Repudiar com veemência e “ofender-se” diante da realidade equivale a permanência no abismo civilizacional. É óbvio que não são todos os indivíduos que se enquadram no que foi narrado. E acaba sendo estapafúrdia e maldosa a interpretação da fala “generalista” do ministro como generalizante a todos os brasileiros. O erro de Vélez foi dizer a “verdade”. A ira dos progressistas é o manifesto da estupidez.

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