ANO: 25 | Nº: 6311

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
23/02/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

A vida é um sopro

A fragilidade e a brevidade da existência humana é sintetizada pela expressão popular que diz que a vida é um sopro. Na tentativa de descobrir a origem, significado e autoria desta expressão, fiz uma breve pesquisa na internet e me deparei com algo pouco comum: o doutor Google não tinha a resposta que eu procurava.

Diante deste raro episódio de poucas e desencontradas referências no melhor site de buscas, me senti inspirado e encorajado a especular sobre o significado e origem da frase, cruzando os fragmentos de informações sobre ela.
Boa parte dos resultados que aparecem no Google ao pesquisar sobre a expressão, vincula sua origem e significado à Bíblia Sagrada que, em Gênesis 2:7, descreve o início da aventura humana na Terra, através de um sopro de vida dado por Deus nas narinas de Adão.
Além de não confirmar o sentido usual que destaca o caráter fugaz da vida humana, esta referência à Bíblia Sagrada, de pronto, me remeteu à forma como a legislação brasileira trata o início da personalidade humana. Nosso Código Civil, mais especificamente no art. 2º, estabelece que nos tornamos pessoas a partir do momento que nascemos com vida. E o nascimento com vida se constata fisicamente pela presença de ar nos pulmões do recém nascido que, até então, estavam repletos de líquido amniótico.
Esta disposição legal, mal ou bem, vem de encontro ao referido texto sagrado, ou seja, o ingresso de ar nos pulmões não deixa de ser um sopro de vida, determinando o início de nossa existência enquanto pessoa (do ponto de vista legal), além, é claro, do início simbólico da existência humana na face da Terra (do ponto de vista bíblico). Será que esta passagem bíblica, que fala do sopro de vida, não é uma metáfora que descreve o início da vida de todos nós? Será que Clóvis Beviláqua, autor do texto legal sobre o início da personalidade, se inspirou no texto bíblico para elaborar este texto? A única certeza que tenho é que o Dr. Google não esclarece nada disso.
Ora, se tudo começou e ainda começa com uma coisa tão rápida e invisível quanto um sopro, é mais ou menos como dizer que nós humanos pegamos meio "no tranco". Uma tragada de ar que faz nosso complexo organismo funcionar de forma autônoma. Sem ele não há vida e sem vida não há pessoa.
Na outra ponta, no fim da vida, tudo termina com o último estertor, ou seja, o último sopro, a última respirada, normalmente descrita como um barulho estranho, similar a um ronco, só que fruto de uma expiração que não antecede uma inspiração.
Resumindo, então, nossa vida não deixa de ser aquilo que acontece entre dois sopros, o primeiro, que enche nossos pulmões de ar, e o último, que finaliza as atividades do nosso organismo. Concluída essa reflexão especulativa ou esta especulação reflexiva, afirmar que a vida é um sopro ganha uma dimensão ainda maior do que a referida inicialmente.

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