ANO: 25 | Nº: 6401

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
28/02/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Translooping

Rótulos e clichês são os grandes alimentos da alma do coletivismo. Aos seus olhos, os “inimigos públicos”, caso queiram sobreviver, têm a “oportunidade” do silêncio. Quebrar essa barreira equivale a ofertar munição aos psicopatas intelectuais. Nessa grande peça teatral da vida política, a racionalidade nunca entrou em cena: deve ficar na coxia de olhos vendados, ouvidos tampados e amordaçada.

Uma das mais fantásticas jogadoras de tênis de todos os tempos, Martina Navratilova, foi o epicentro de uma temática vista como intocável por grupos histéricos. Após ter publicado um artigo, em 17/02/2019, no jornal The Sunday Times, em que critica a participação de atletas transsexuais em competições esportivas femininas, a ex-tenista foi atacada com um smash progressista.

Em seu texto, Navratilova disse que “um homem pode decidir ser mulher, tomar hormônios se exigida por qualquer organização esportiva, ganhar tudo [...] e talvez ganhar uma pequena fortuna e, então, reverter sua decisão e voltar a fazer bebês, se ele assim o desejar”. Da mesma forma, a ex-campeã de 18 Grand Slams declarou que a participação de mulheres transsexuais em torneios esportivos femininos “é insano e desleal”. Para Navratilova, não há problema algum em falar com uma transsexual da maneira que ela preferir; no entanto, “eu não ficaria feliz em competir contra ela” face à discrepância biológica. Baseada em pesquisas, Navratilova disse que a redução dos níveis hormonais não resolve o problema da diferença entre homens e mulheres; afinal, os primeiros acumulam “densidade muscular e óssea, assim como um número maior de glóbulos vermelhos transportadores de oxigênio”.

Mesmo sendo homossexual e ativa defensora do público LGBT, isso não livrou a pele da ex-atleta: ela foi excluída do conselho do grupo LGBT Athlet Ally por ser considerada transfóbica. No Twitter, Rachel McKinnon, primeira mulher transsexual a vencer uma prova no ciclismo, disse que Navratilova é “absolutamente transfóbica”. A ONG Trans Actual também a classificou da mesma forma, questionando: “Se as mulheres trans têm vantagem no esporte, por que elas não estão ganhando medalhas de ouro em todos os lugares?”. Um detalhe: Navratilova já criticou duramente outra lenda do tênis, Margaret Court, por ter “estigmatizado” ainda mais as crianças e adultos transsexuais em um comentário realizado em meados de 2017. Ou seja, não resta dúvidas de que Navratilova é bastante sensível à defesa dos interesses trans.

Contra a pergunta da ONG Trans Actual, pesa o próprio desempenho de McKinnon, as ótimas estatísticas (com quebra de recorde) da transsexual Tiffany Abreu (vôlei) ou o caso das corredoras trans Terry Miller e Andraya Yearwood, que não param de obter vitórias em provas de atletismo. Ou seja, já existem casos que retrucam aquela ONG.

Porém, mais paradigmático foi o caso da amazonense Anne Veriato, mulher transexual e lutadora profissional, que se recusou a competir no MMA feminino: “Seria covardia lutar contra mulheres. Isso é uma coisa que nunca passou pela minha cabeça [...] Me sinto mais forte que as mulheres”. Mas nenhum fato impediu que Navratilova fosse atingida (acusada) pelo looping do politicamente correto. Antes, somente os “inimigos” eram atingidos. Hoje em dia, com a volta completa, o expurgo ideológico não poupa ninguém.

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