ANO: 25 | Nº: 6382

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
02/03/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

No tempo da sessão de Vermû

Ou não fazia calor ou era elegância mesmo, sempre enfatiotado, gravata fina; colarinho duro, as rudes barbatanas que se engastavam nas garagens das camisas, tudo limpo; a lavadeira caprichava no anil, depois ferro em brasa, o armário arrumado.
Fotografias avermelhadas, de sol tinto, tiradas na rua Sete: uma pose esticada, mãos nos bolsos, bigodinho ralo; no inverno, gabardine, dizia-se inglesa, tempos melhores; caminhando para a vida.
Fazia parte do futim desfilar da Casa Ipiranga até os cinemas, olhares cupidosos para os corpos que tinham tudo coberto; imaginação fértil que descobria fendas, curvas, saliências, moldadas na saia plissada, vincos que iam para lá e para cá segundo a qualidade da protuberância; no andar do salto Anabela, às vezes fino taiêr.
Rio de passagem é preciso lustrar o sapato, enquanto o escovar transitava, visão dos tabacos cubanos; cheiros suculentos, a flanela que deslizava, cadeira alta que presumia orgulho; protegidos os carpins da perigosa nódoa; as ligas elásticas; e os suspensórios.
Depois, passo firme, é hora de pesar na balança da Casa Krentel, naquele tempo não se sabia de colesterol; torresmo não fazia mal; quantas cubas nas salas do rádio baile.
O relógio monstro do Relógio Monstro acompanhava com sua argola e visão atenta, tinha também um fotógrafo que ficava à espreita, clique, daí possível e exata lembrança.
O ponto de espera era a frente do clube, teve aquela briga com os tenentes, também eles vinham arrasando as esperanças de bons casares, nos bailes de gala vestiam borlas e cores, se apresentando ao general, não havia guria que resistisse a um bolero; futuro certo, bom soldo, depois seguro montepio.
Ali era o périplo do mundo, planetas se deslocavam; a guerra acabou; presidente mudou; Guarany era campeão; não interessava, a visão da existência se resumia naquelas três quadras, a que se refugiava sempre, sábados, domingos, tardezinhas de cálido outono; desfiles da mocidade, cavalos sujando de esverdeada massa; garotos da batucada, príncipes do amor, as bolotas que abatiam crânios; cheiro de rodo, mais pobres, vidros de simples colombina, atrás do Vassourão só não vai quem já morreu.
Vencido a matinê, abandonado o Cobra e a ilha do tesouro, o seriado, o episódio que gerava discussão escatológica sobre como o mocinho ia se salvar; o gozado que andava com o Charles Starret tinha um cavalo com o olho pintado, bonito era o Trigger; vinha a sessão vermû: outra estória.
Tempos de mirares escusos, um giro pelas cadeiras do Avenida, lembram melodia imortal? Também a Esther Williams que arrancava suspiros e manobras noturnas; de vez enquanto a Pelmex, a lua que vinha rodando, o requebro da Ninon Sevilha, indefectível Trio Los Panchos, Tanto tiempo desfrutamos de este amor, nuestras almas se acercaron tanto asi, que yo guardo tu sabor, pero llevas también sabor a mi; Love is a many splendored thing; ela morria no fim, lencinho oculto.
Na boate, as mesas serviam filé recheado do Saul, se dançava com os Românticos de Cuba, rum e Coca-Cola; bailes da exposição, tinha que ter orquestra de tangos; trajes para três noites; as debutantes, esmoquim emprestado: rosto colado, lá no meio era bom: e algumas erupções menos dignas.
Rua Sete, sonhos e frustrações, perpassar da eternidade, teu trejeito recorda idas e vindas, calçadas que buscam antigos passos, aqui já andei, tua leve inclinação para azulado sul aponta irreversível sina: mas demorado desejo.

Fonte: Cenarte, Manifesto Poético, Urcamp. Já faz bastante tempo...

 

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