ANO: 25 | Nº: 6382
02/03/2019 Cidade

Uma vida dedicada à ovinocultura

Foto: Felipe Valduga

Aos 85 anos de idade, o bajeense Manuel Rossel Sarmento (Lito Sarmento) é figura conhecida na ovinocultura, já tendo participado e vencido em diversas competições nacionais e internacionais. Hoje, o estancieiro preserva a tradição de sua família na criação de ovelhas, destacando-se com a raça Romney Marsh, com a qual coleciona troféus, atua como jurado e é homenageado em eventos especializados no assunto.

Nascido em 28 de dezembro de 1933, a relação de Sarmento com o meio rural teve início poucos dias após seu nascimento, ao ser levado para a estância de sua família, no caminho para a Serrilhada, onde deu início aos seus trabalhos campeiros.“A grande faculdade da minha vida foi a estrada Bagé / Serrilhada. Com 15 dias de vida eu fui para a estância e até hoje, com 85 anos, vou para o mesmo caminho”, conta.

Lito relembra que sua trajetória na criação de animais começou ao completar nove anos de idade, quando seu avô, Manoel Alves Sarmento, lhe deu, de presente, suas primeiras nove cabeças de gado. “Ele (avô) me mandou de presente um bilhete dizendo: ‘um abraço, fazendo nove anos, te mandei nove vaquilhonas para tu aprenderes a fazer um gado’. Isso me marcou profundamente, foi uma base que recebi”, afirma.

Aos 23 anos, em maio de 1957, o jovem Lito viajou para a Nova Zelândia, país referência na ovinocultura, onde ficou 100 dias estudando sobre o ramo e as especificidades dos animais. Neste período, ele destaca que a aprendizagem não foi apenas em questões técnicas e práticas sobre os animais, mas também contou com ensinamentos sobre a cultura do local e como ela influencia na criação. “Eu estive em 45 casas de campo na Nova Zelândia. Nenhuma tinha chave na porta da rua, só o trinco, quase não sabiam o que era ‘roubar’, isso foi uma das coisas que me chamou a atenção”, lembra.

Ao voltar para Bagé, na década de 1960, Lito se casou e constituiu família na estância, em Bagé, enquanto seu pai, Belisário, tomava conta das terras de seu avô, nas proximidades de Rivera, no Uruguai. “Meu pai era um homem apaixonado por ovelhas. Nós chegamos a ter sobre nosso trabalho 18 mil ovelhas”, ressalta.

 

Negócio de família

Atualmente, junto a seu irmão caçula, Renato, Lito é proprietário da Estância São Francisco, em Bagé, mas também administra as terras de sua família em Rivera. Já a estância na Rainha da Fronteira é administrada, hoje, por seu filho Manuel Luís, 58 anos, cujo herdeiro Manuel, de 24 anos, é a atual promessa da família. “Ele conhece ovelha como gente grande, sabe mais que pessoas com 40 ou 50 anos criando os animais”, declara o avô.

Segundo Lito, seu neto foi autodidata, aprendendo a cuidar dos animais apenas ao ver sua família trabalhar. “Quando ele era pequenininho, eu disse para ele: eu vou te dar umas ovelhas para tu aprenderes a criar, fazer dinheiro com elas e comprar um automóvel para ti. A mesma coisa que meu avô fez para mim”, destaca.

Com isso, há alguns anos, o estancieiro cumpriu a promessa e entregou ao seu neto algumas ovelhas Romney Marsh naturalmente coloridas (de cor escura). Hoje, os Sarmento têm o primeiro rebanho de ovelhas Romney naturalmente coloridas no Brasil.

As três gerações da família, segundo Lito, já foram, inclusive, convidadas a julgar ovinos em exposições no Uruguai e na Argentina.

 

Romney Marsh

Sarmento conta que as raças de ovelha se dividem entre as comuns e as de duplo propósito, carne e lã. Como exemplo, ele fala da Corriedale, raça mais produzida no Rio Grande do Sul e no Uruguai, cuja produção tem como propósito 50% para carne e 50% para lã. Já quanto à Romney Marsh, raça inglesa popularizada nos anos 40 e que foi trazida, pela primeira vez, até Bagé da Argentina pelo pai de Lito, a produção tem como objetivo 60% para carne e os 40% restantes para lã.

O bajeense destaca a qualidade da carne como o ponto forte do animal, mas também afirma que a lã produzida pela Romney, embora seja uma das mais grossas e, por consequência, uma das menos valorizadas, não é de se desperdiçar. “É um produto que dá e que tem seu valor. Mesmo que a lã fina seja mais valorizada, têm coisas que tu só podes fazer com lã grossa”, afirma o empresário, que cita peças de artesanato e cortinas como objetos que utilizam lãs grossas. “Nos Estados Unidos, cortina não tem como ser de lã fina, porque ela é mais inflamável que a grossa”, exemplifica.

 

 

O cenário atual

Sobre o cenário atual da ovinocultura em Bagé, Sarmento destaca que, além do abigeato ter dificultado a criação dos animais, a popularização do material sintético foi um dos causadores na queda da produção de lã, que já chegou a superar quatro milhões de quilogramas por ano. “O sintético entrou muito forte e dominava todo o mercado. Em consequência disso, a Cooperativa de Lãs (Cobagelã) começou a marcar passo. Cada vez recebia menos lã e podia repassar menos dinheiro para os produtores”, conta.

Além disso, o criador destaca que o desenvolvimento da agricultura, como arroz e soja, e o aumento na aceitação de bovinos também influenciaram no mercado. “Quando começou a genética mais apurada dos rebanhos bovinos, o gado começou a ter uma aceitação muito grande e a subir muito de preço. Se fazia dinheiro em maior volume com gado do que com ovelha”, alega.

Na São Francisco, por exemplo, Sarmento revela que chegou a trabalhar com oito mil ovelhas por ano. Já, na atualidade, seus estoques contam com menos de dois mil ovinos, além de também atuar com a bovinos Hereford, cavalos crioulos e na produção de soja, arroz, pastagem e sementes.

No entanto, Lito diz que a criação de ovinos também tem suas vantagens. “Com dois anos de vida, após a vaca passar por uma gestação de nove meses, um bovino, com 500 quilos, dá dinheiro. Agora, a ovelha, em cinco meses, produz um cordeiro e em mais cinco meses tu já podes comer a carne. Mas a matriz (fêmea) ficou e a lã dela também é um produto”, afirma o bajeense, que também destaca a carne do animal como a de preço mais valorizado no mercado brasileiro. “A carne do cordeiro é nobre e ela tem uma procura enorme. Hoje, ela é a carne mais valorizada que existe no Brasil. É uma carne que tem que saber preparar, mas que é altamente saborosa e que não tem gordura”, argumenta.

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