ANO: 25 | Nº: 6335

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
07/03/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Mulher educada

Um moderado é “vendido” como uma muralha contra os extremos. Sensatez e equilíbrio moral talvez sejam as grandes características que o portador desse “título” deve ostentar. Claro que entre ser e querer ser há uma enorme lacuna. Ainda mais em uma era em que os conceitos são continuamente deturpados (perdendo seus verdadeiros significados para cumprir determinadas agendas ideológicas) e que está abraçada com o relativismo.

O presidente da França, Emmanuel Macron, por um período e aos olhos do mainstream, era visto como um baluarte contra impiedosos radicais. Rapidamente, foi visto como um Obama, um Clinton ou um novo Blair pela grande mídia, o que lhe rendeu prestígio imediato. Até mesmo seu casamento não muito convencional, com uma mulher 24 anos mais velha que havia sido sua professora em uma escola, gerou bons dividendos eleitorais: foi muito bem explorado como um homem que quebra paradigmas.

A adesão às raízes progressistas soou bem às pautas simpáticas aos veículos de comunicação. Para ficar em um exemplo, no caso do aborto, Macron foi explícito ao declarar, no simbólico Dia Internacional da Mulher de 2017, que nunca deixaria de “defender o direito à interrupção voluntária da gravidez”. Sobre o referendo irlandês a respeito do aborto, realizado no ano passado, Macron postou no Twitter que “essa votação será um símbolo essencial para a liberdade das mulheres”, um dia após a população rejeitar a proibição daquele ato.

Claro que para esses “gourmetizados” engravatados globalistas, liberdade nem sempre é liberdade. Em meados de 2017, o presidente francês, durante o G20, relacionou que um dos problemas do continente africano está diretamente relacionado às elevadas taxas de natalidade: “Quando os países ainda têm sete ou oito filhos por mulher, você pode decidir gastar bilhões de euros, mas você não vai estabilizar nada”. Apesar de tentar mostrar os limites econômicos existentes, Macron não deixou de responsabilizar a fecundidade feminina (e as crianças geradas) pelos martírios da África.

Mesmo que isso não tenha ficado tão evidente nesse primeiro discurso, o gaulês foi mais enfático em setembro de 2018. Ao palestrar no evento “Goalkeepers”, da Gates Foundation, sobre a importância da instrução para reduzir as desigualdades de gênero e reforçar que a alta taxa de fertilidade africana não é uma escolha, mas sim uma imposição cultural, o presidente disse: “Apresente-me uma dama que decidiu, sendo perfeitamente educada, ter sete, oito, nove filhos”. Nas redes sociais, não faltaram exemplos de mulheres bem-sucedidas em suas profissões e que criticaram Macron com fotos de suas numerosas famílias.

Macron, que optou por não ter filhos e com a mentalidade típica dos planificadores sociais, pensa que a geração de uma vida tem de estar submetida a um processo educacional. Chegou a fazer uma ressalva, no mesmo evento: de que estava de acordo com uma mulher ter muitos filhos, podendo exercer sua liberdade de escolha somente após ser educada.

O político francês, “lutando” pelas escolhas das mulheres, determinou como elas devem pensar suas famílias. Estabeleceu critérios rígidos. Fixou a ignorância como marco para várias gestações. Reproduziu o tabu progressista de como uma mulher educada e “empoderada” deve viver. E, para abortar, também é preciso ser educada?

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