ANO: 25 | Nº: 6361

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
09/03/2019 Airton Gusmão (Opinião)

A quem obedecemos?

É importante a gente se perguntar sobre aquela frase que Jesus nos deixou na Oração do Pai Nosso, aquele pedido que fazemos continuamente, com muita insistência e confiança: “E não nos deixeis cair em tentação”. As tentações de Jesus são um resumo de tudo o que poderia desviá-lo de sua missão e também um retrato das tentações que devemos vencer hoje para não nos desviarmos do Projeto de Deus.
“Nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação” (Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, Século V).
A Quaresma é o tempo de volta ao Projeto original do Pai, para a construção do mundo do jeito de Jesus. No episódio das tentações de Jesus importa levar em consideração que o centro da questão é a oposição entre duas propostas: o projeto do Pai e o projeto do diabo. A construção do mundo do jeito que o diabo gosta e a do mundo ao gosto de Deus. Mais importante do que Jesus ter sido tentado pelo diabo, é que Jesus reafirmou sua adesão ao projeto de Deus: “A Escritura diz:  não só de pão vive o homem; adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás e, não tentarás o Senhor teu Deus” Lc 4,1-13).
Conduzido pelo Espírito Santo, Jesus enfrenta três dos maiores desafios de qualquer ser humano: a fome, a segurança religiosa e o desejo de poder. Diante das tentações, Jesus responde com a Escritura. Diante das grandes questões que desestabilizam a pessoa humana em todos os tempos e lugares, Jesus traz a Palavra de Deus para dentro da vida. Ele combate cada uma das tentações com a libertação que vem da Palavra.
Lemos ainda nos Evangelho: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). Jesus tinha consciência da necessidade de sempre estar preparado e alicerçado na Palavra de Deus. São três tentações que atingem Jesus em cheio. Elas perseguem o ser humano ao longo de toda a sua vida. As tentações não são somente para Jesus, mas para toda a humanidade.
Há um belíssimo texto que a Igreja nos brindou e que nos ajuda nesta reflexão sobre as tentações ontem e hoje: “De fato, a Palavra divina desvenda também o pecado que habita no coração do homem. Muitas vezes encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a descrição do pecado como ‘não escuta da Palavra, como ruptura da Aliança’ e, consequentemente, como fechar-se a Deus que chama à comunhão com Ele. A sagrada Escritura mostra-nos como o pecado do homem é essencialmente desobediência e ‘não escuta’. A obediência radical de Jesus até a morte de Cruz, desmascara totalmente este pecado” (Bento XVI. Exortação Apostólica Pós-sinodal sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, nº 26).
Obedecendo à Palavra, Jesus vai vencendo as tentações e continuando a missão que o Pai lhe havia confiado. E a Palavra que iluminou a vida de Jesus, ilumina também a nossa hoje. O mesmo Espírito que guiou Jesus continua nos guiando hoje. Obedientes à Palavra de Deus, confiamos que o Mestre está conosco, ajudando-nos a superar as tentações no hoje de nossa vida.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

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