ANO: 25 | Nº: 6280

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
09/03/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Zona de conforto

Nas primeiras vezes que começamos a desenvolver alguma atividade, normalmente nossas atitudes são comedidas, tímidas, revelando a insegurança e o despreparo típicos dos iniciantes. São poucas as atividades humanas que dispensam qualquer tipo de experiência para serem bem desempenhadas desde o início. No geral, só a experiência permite desempenhos melhores.
Depois dessa fase inicial do aprendizado, caracterizada pela insegurança, timidez e excesso de cautela ou prudência, passamos para uma fase onde começamos a ficar convencidos de que já dominamos o assunto, de que nada pode nos surpreender, de que estamos prontos. Todo esse convencimento desarma nosso espírito e relaxamos. Nesse momento, é muito comum levarmos um susto. Por excesso de confiança nos descuidamos e aquilo que até então acreditávamos impossível acontece: erramos. Soberba, presunção ou arrogância, não interessa o nome, mas o certo é que todos tendemos a isso e em todas as atividades que desenvolvemos. Isso é natural porque é humanamente impossível ficar sempre alerta. Em algum momento vamos vacilar, vamos “dar mole” como se diz atualmente. Alguns chamam isso de “hora boba” ou “bobeada” e normalmente quem sobrevive a esta vacilada jamais esquece a lição.
O passar dos anos e a soma de todos os nossos erros nos ensinam que nunca saberemos tudo. Isso nos torna mais humildes, menos presunçosos e mantém nosso nível de atenção mais equilibrado, dando menos chance ao azar. Aprendemos que errar é sempre possível e que quanto mais arriscarmos, maior será a chance de errarmos. Assim, para não errar, começamos a não querer mais arriscar. Optamos pelo certo em vez do duvidoso e, assim, começamos lentamente a entrar naquilo que se denomina de “zona de conforto” que é uma fase avançada ou um “remake” daquilo que acontece lá no início do aprendizado quando erramos por excesso de confiança.
No início, erramos porque, sem cautelas, arriscamos. Mais tarde erramos porque, por cautela, não arriscamos. Em comum entre estas diferentes fases do aprendizado, o fato de relaxarmos em função da crença de que aquilo que estamos fazendo é o certo e de que não corremos risco algum. Porém, em ambas, costumamos ser surpreendidos. De repente, sem aviso, descobrimos que nossa desatenção custou caro. No início nossa desatenção leva ao erro. Mais tarde nossa desatenção é o próprio erro, pois, optando por não mudar, abrimos a oportunidade para que algo ou alguém inovador nos torne obsoletos ou dispensáveis. Belchior já alertava para isso na mais bela música que compôs: “... é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem...” (trecho de “Como nossos pais”).
Então, a sabedoria está, para variar, no meio termo. Para evoluir não podemos ter medo de arriscar e, consequentemente, de errar. Porém, para evitar erros desnecessários, não podemos nos descuidar. De mais a mais, podemos aprender sem errar e, neste sentido, Sam Levenson sentenciou brilhantemente: “Aprenda com os erros dos outros. Seria impossível você viver o suficiente para cometê-los todos.”

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