ANO: 24 | Nº: 6184

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
14/03/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Quando animais não são animais

Em nossa era dos prazeres, nada aguça mais a curiosidade das massas do que a temática sexual. Seja por tabu ou por “empoderamento”, a hiperssexualização ganhou contornos políticos. Saiu do ambiente privado e passou a ocupar (literalmente) a praça pública. Atualmente, quando explorado pelo bizarro, o sexo transformou-se em resistência contra os padrões razoáveis: resiste-se contra a sanidade e contra a racionalidade.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro divulgou um vídeo no Twitter em que é possível ver um homem dançando com roupas que deixam suas nádegas de fora; logo em seguida, o rapaz passa a enfiar seu dedo no ânus, simulando alguma prática sexual; por fim, outro homem que estava ao seu lado, retira o seu pênis para fora da bermuda e passa a urinar no cabelo do primeiro rapaz. Tudo isso em cima de um ponto de táxi.

Apesar de alegar não se sentir confortável com aquela cena, o presidente disse que é seu dever mostrar a verdade sobre “isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”. No dia posterior à divulgação, o presidente tuitou: “O que é golden shower?”. A pergunta dirigia-se aos que haviam identificado, naquele vídeo, o estranho ato de obtenção de prazer sexual por meio da ação de urinar no parceiro(a). Após isso, alguns “especialistas” indicaram que esse conjunto de atos virtuais presidenciais poderiam lhe custar um impeachment, face a possível incompatibilidade com o decoro exigido para o cargo.

A despeito das sinceras críticas que poderiam ser feitas sobre um presidente publicar algo tão explícito, é evidente que a elasticidade do termo “decoro” não tem o condão de enquadrar uma conduta que nada mais fez do que mostrar atos que acontecem em muitos carnavais em grandes centros urbanos. Ou seja, impeachment por mostrar o que realmente acontece? Na lógica progressista, não há nada mais indecoroso do que mostrar a verdade, o que enseja uma severa punição.

Mas o mais interessante foi a manifestação dos jovens protagonistas daquele “teatro” tétrico. De acordo com a Folha de S. Paulo, os dois envolvidos produziram um manifesto em que defendem o caráter artístico-político daquilo que realizaram. Também enfatizaram que militam “contra o conservadorismo e contra a colonização dos nossos corpos e práticas sexuais”, pedindo respeito por suas escolhas e inclinações sociais. E ainda acrescentaram, para além de mencionar o quanto Bolsonaro despreza “minorias” sociais, que sua grandiosa performance “está amparada constitucionalmente e qualquer esforço em desqualificá-la, reprimi-la ou reprová-la pode ser enquadrada como ato de censura”. Para esses “reformadores sociais”, a barbárie vira arte e politiza-se no sexo. Ao mesmo tempo, a possibilidade de crítica deve ser censurada em nome da libertação das amarras conservadoras, e o direito constitucional vira instrumento que permite vandalizar valores caros à civilização.

Em um belo texto produzido para o jornal Gazeta do Povo, Paulo Polzonoff Jr. disse que aquelas ações carnavalescas significam “a submissão quase completa do ser humano a seus instintos e sua redução à condição de animal”. Li esse trecho para a Prenda, minha amiga Pequinês. Ao ouvir isso, latiu ferozmente: “Isso é ofensivo! Onde eu urino, não me alimento nem durmo, meus maiores prazeres”. Então, estamos reduzidos a quê?

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