ANO: 24 | Nº: 6184

Fernando Risch

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Escritor
15/03/2019 Fernando Risch (Opinião)

Como é que não é jacaré?

Em 2007, Marcelo Freixo, com três dias de mandato como deputado estadual, quis instaurar a CPI das Milícias no Rio de Janeiro. Todos riram, visto que era uma aventura ousada e perigosa (como acabou se mostrando ao parlamentar) de um novo membro da magistratura. Um ano depois, a comissão parlamentar estava instaurada, com Freixo presidindo. Flávio Bolsonaro, então no PP, votou contra a instauração da CPI. Mais que isso, pretendia apresentar um projeto de lei para legalizar a prática criminosa de milícia.
 
Mais de 10 anos depois, sobe à superfície daqueles que se tornam teto e deixam de ser pedra, que Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete por mais de uma década mulheres e parentes de milicianos, incluindo seu motorista, Fabrício Queiroz, envolvido em escândalos de movimentações financeiras no gabinete de Flávio, e ligado à comunidade de Rio das Pedras, um dos maiores antros de milicianos no estado.  
 
Na Assembléia Legislativa do Rio, Flávio Bolsonaro homenageou Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-chefe da milícia do Rio das Pedras, conhecida como Escritório do Crime, duas vezes. Primeiro em 2003, com menção honrosa. Depois em 2005, com a Medalha Tiradentes, maior honraria concedida pela Alerj. Além dele, Ronald Paulo Alves Pereira, recebeu menção honrosa também em 2003, quando já era investigado como um dos autores de uma chacina de cinco jovens na antiga boate Via Show, no mesmo ano.
 
Seu pai, hoje presidente da República, Jair Bolsonaro, assim como o filho, por diversas vezes defendeu as milícias. Em 2005, defendeu o mesmo Adriano Magalhães da Nóbrega, quatro dias após ele ser condenado a 19 anos e seis meses de prisão pela morte de Leandro dos Santos Silva, um guardador de carros na favela Parada de Lucas, Zona Norte do Rio. A família de Leandro denunciou que PMs na região extorquiam moradores, sujeitos a retaliações e morte. O pronunciamento do atual presidente à época foi paralelo à homenagem que seu filho Flávio fez ao miliciano, que foi condecorado com a maior honraria do Rio de Janeiro estando na cadeia.
 
Quando Marielle Franco foi assassinada, Jair Bolsonaro não se pronunciou em solidariedade para “não causar polêmica”, porque Bolsonaro “conhecia as bandeiras que ela levantava”. Em dissonância ao seu silêncio, por exemplo, ao sofrer o atentado de Adélio Bispo, em 2018, opositores ferrenhos a Bolsonaro prestaram solidariedade, como Fernando Haddad, do PT; Guilherme Boulos, do PSOL; Ciro Gomes, do PDT; Marina Silva, da REDE; só para citar alguns.  
 
Nesta semana, quando os principais suspeitos da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes foram presos, Bolsonaro, que geralmente rasga elogios à polícia, se calou ao bom trabalho dos investigadores; mas disse que conheceu Marielle apenas depois de sua morte, contradizendo sua fala de um ano antes, quando alegava que não se manifestaria por dissidências ideológicas às posições que conhecia da vereadora.
 
Um dos suspeitos do assassinato de Marielle, o PM reformado e miliciano Ronnie Lessa, morava no condomínio de luxo Vivendas da Barra, no Rio, onde mora Jair Bolsonaro. Mais que isso, era vizinho de rua do atual presidente, que tem duas casas no local. Segundo o delegado responsável pelo caso, Renan Bolsonaro, filho mais novo de Jair, namorou a filha de Ronnie Lessa. O outro suspeito, Élcio Queiroz, um ex-militar envolvido com a milícia, tem fotos pousando ao lado do atual presidente em suas redes sociais.
 
Como disse certa vez Leonel Brizola: "Se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?".

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