ANO: 25 | Nº: 6332

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
16/03/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A mudez da esfinge

Viajar é bom. Por anos a experiência internacional se resumiu à Casa Perez; a Melo e a Confeitaria Washington; a Corrientes, 348; a Concepción, para um curso de verão, os Andes; Punta, e deu. Além-mar só quarenta e quatro anos depois. Seguem outros 20, e inativado, aparecem chances para saber de outras nações e povos. Agora, volto ao aconchego depois de outra saga.
Foram pouco mais de 10 dias. Trinta e duas horas dentro de aviões em trajetos sobre água e deserto. Outras tantas em ônibus. Alguns dias de sobe e desce de barco singrando o opulento Nilo. E mais caminhadas sob o sol para chegar aos passeios. Sem esquecer, ufah, centenas de degraus escalados com espírito de maratonista carente de fôlego e agilidade. Tudo em nome da aventura e a certeza de que no futuro os idosos dominarão a terra. Vã esperança, rirão as múmias.
Confesso que ainda farejo o terço quando a aeronave trepida e resfolega por cima do mare nostrum; e se mantém, piscando, o aviso de alguma turbulência. Parece incrível, mas uma paz ilógica consola ao ver no mapa que se voa sobre o território brasileiro. Se acontecer algo, ao menos se tombará no solo pátrio (só falta o lábaro estrelado e o estribilho).
Falando sério, se o leitor pretende viajar, primeiro, reduza a alimentação gordurosa, os doces, a cerveja, torne-se esguio e glabro; matricule-se numa academia, não precisa puxar ferros, mas faça muita bicicleta e esteira, de modo que a musculatura de suas pernas traga inveja a um jogador de futebol. Exercícios com pesos leves, para tirar a flacidez dos braços, pois as sacolas de compras e lembrancinhas (fatalmente) lhe tocarão carregar através dos corredores álgidos e assépticos dos aeroportos, embora seu ávido olhar insista em descobrir, e rapidamente, onde fica a tabuleta “toillete”. Não guarde mais dólares em casa, planejando a futura viagem, pois alguns países não aceitam mais às verdinhas enxovalhadas e rotas, eles querem cédulas flamantes recém-saídas do banco. E se prepare para despegar-se das bolsas, e até dos tênis, pois os escâneres são impiedosos (as apalpadelas não são lúbricas, mas respeitosas). E tira/guarda do passaporte é o ato mais corriqueiro.

Museu do Cairo - a viagem ao Egito é, para os mais velhos, uma reverberação das aulas de história dos tempos de ginásio. É a comprovação do que os compêndios narravam. Uma mistura de momentos bíblicos com os filmes épicos. Assim, na imponência do Museu Nacional do Cairo se transita pelas dinastias que encantavam a imaginação juvenil, Miquerinos que mandou edificar uma das três Pirâmides de Gizé; Quéfren, em seu trono de diorita negra; a cabeça de Nefertiti; a máscara funerária de Tutankâmon, ouro incrustado de pedras preciosas; seu sarcófago também de ouro maciço, e sua barba postiça, símbolo de sua divindade; os magníficos colares de pedras e alabastro; as urnas lívidas em seu brilho amarelo; o trono dourado do faraó, com incrustações de pedras e marfim. Também lá a múmia de Ramsés II, reveladora de artrose em sua coluna vertebral nonagenária, um dos mais vetustos faraós, pois a grande maioria morria antes dos trinta anos (teve, aliás, dezenas de esposas); a estátua de Tutamés III, vitorioso em inúmeras batalhas na Ásia: e mais. Um dia completo não seria suficiente para tanto reencontro. Como sempre, tudo desemboca num bazar, cheio afeições ao alforje minguante.

Sagrada Família - um dos instantes de emoção acontece quando uma passagem bíblica ganha concretude. Conta o evangelista Mateus que após o regresso do Magos, um anjo apareceu em sonho a José e lhes disse: “Levanta, toma o Menino e Mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para matar (2, 13-18). ” Herodes ordenara a morte das crianças com menos de dois anos, temeroso de perder seu trono, e os soldados já vasculhavam Belém. Crente, o marceneiro segue pelo deserto do Sinai, empreitada dolorosa, pois ali a temperatura varia de zero a 50 graus, desviando de caminhos onde circulavam egípcios, romanos, feras e ladrões. Chegando ao Egito, a Trindade ali permaneceria por quatro anos, até que a morte de Herodes permitisse a volta.  O episódio, segundo os doutrinadores, reforça a credibilidade dos sonhos presentes em muitos versículos e sua relevância psicológica como restauração de um fato. Mais tarde, outro sonho leva para a moradia em Nazaré, agora por medo a Arquelau, sucessor de Herodes.
No bairro copta- local, onde se falou língua mistura de egípcio antigo e grego –  há a Igreja de São Sérgio, de índole ortodoxa, e nela um nicho subterrâneo (caverna ou cova), composto de duas pequenas peças, ainda com dois blocos calcários que serviram de descanso à Sagrada Família durante quatro anos. E, saindo, um pátio com um poço (fonte) onde Maria, José e o Menino Jesus acalmavam a sede. Embora o atropelo de turistas, o que não permite genuflexão respeitosa, impossível não se comover neste vão santo.

Pirâmides e templos - nem é preciso referir, mas tudo conduz às pirâmides, esses monumentais sepulcros constituídos de enormes blocos de pedra, que pesam toneladas e que fazem admirar o engenho do esforço humano. Materiais que vinham das grandes pedreiras da região, muitos até transportados através do Nilo. Historiadores contemporâneos desmistificaram a teoria de que foram erigidas principalmente com o trabalho escravo. É que, na época das chuvas e inundações das colheitas, para que os agricultores não sofressem com falência de suas safras, os faraós os deslocavam para esses canteiros de obras, minorando suas situações financeiras. O esoterismo que decorre da posição das pirâmides, os cálculos matemáticos de suas estruturas, o mistério que cerca seus interiores pouco visitados, ainda depois de séculos admiram e surpreendem. As Pirâmides ficam em Gizé, distrito do Cairo e não muito distante da metrópole. Sua visão é impactante. Quéops, hoje com 137 metros de altura – como acontece na velhice, diminuiu sete metros – deve ter mobilizado mais de 20 mil operários em sua edificação. Quéfren, que fica numa elevação, é a única que mantém a cobertura. Ali, há um sarcófago de granito vermelho. Miquerinos, mais ao Sul, foi a última a edificar. A seu lado habitam três pequenas pirâmides, para as três esposas do faraó, e outras com topo achatado, para os filhos favoritos. Todavia, os melhores encantamentos estão nos Templos, alguns deles oriundos do transplante para outros lugares, quando o lago de Nasser da Barragem de Aswan sepultou vilas e povoados. E submersos, seguramente, ainda há muito a ressuscitar.
Em Mênfis, cidade que teve seu esplendor com Ramsés II e Alexandre, é a terra de Agar, escrava que Sara, estéril, permitiu ser concubina de Abrão, seu esposo, para gerar um descendente biológico dele que liderasse o povo de Deus. Abrão já tinha 85 anos e Sara 75. Da relação concubinária nasceu Ismael. Mais tarde, quando Abrão tinha 100 anos e Sara noventa, ela engravida de Isaac (Gênesis, 16, 1-3). Dessas duas matriarcas vieram os árabes (Ismael) e os judeus (Isaac), primos que ainda não se acertaram. Em Mênfis, que impressiona também pela simplicidade do povo e a poluição (sujeira) de seus riachos, há um parque dedicado a Ramsés II, com enormes estátuas dele.
Na simpática Luxor, que os livros antigos chamavam de Tebas, há um complexo de templos (Karnac) dedicados ao deus Amon, mas também a Ramsés III. Pilares e obeliscos enormes. Mas notável, foi ao entardecer, quando o sol se esvai e a noite se enfeita, percorrer o Templo de Luxor, indescritível conjunto de estátuas, pilares, obeliscos, pátios, salas, torres, avenidas, que além de homenagear Amon, também honravam Ramsés II e Amenófis III. Também em Luxor fica o Vale dos Deuses e o Templo de Hatchepsut, sendo local onde se processam escavações em busca de outros túmulos. Perto, ainda, o Colosso de Memnon, duas enormes estátuas de Amenófis III. Outro passeio é ao Santuário de Filas ou Templo de Isis, agora já com o ciclo dos Ptolomeus e Cleópatra; e o de Edfu, de Templo de Isis, celebrando Hórus. Haveria mais Abu- Simble, tudo feito como fachada da rocha.

Esfinge -
 tive com ela dois encontros. De dia, na visita às Pirâmides e certa noite de muito frio, num espetáculo de luz e som. Consta da cabeça de um homem – rosto de Quéfren- e o corpo de um leão. Tentei dialogar e indagar meu destino. Manteve-se silente. Entendi que já tinha gasto a lábia com Édipo e desejava preservar sua fama. Fiz um salamaleque. E me dirigi ao ônibus.

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