ANO: 25 | Nº: 6262

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
16/03/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

A vida imita a vida, de novo

Não dá nem para dizer que elas estavam no lugar errado, na hora errada, como sempre se diz quando queremos explicar aquelas fatalidades que atingem as pessoas aleatoriamente. Na verdade as vítimas do massacre de Suzano estavam no lugar certo e na hora certa: na escola, onde boa parte das crianças deveria estar numa manhã normal de quarta-feira. Porém, dois rebeldes sem causa, dois loucos, com várias e diferentes armas, cometem uma ação sem razão e concretizam uma estupidez que, infelizmente, já tem precedentes em nosso País.
E mesmo com precedentes nacionais e estrangeiros o impacto da notícia foi enorme, merecendo grande destaque da mídia, o que de certa forma é positivo, pois é sinal de que ainda não estamos considerando como normais, anormalidades destas. A mídia estadunidense, mais calejada, já aprendeu com tragédias similares, que se deve evitar 'glamourizar' a imagem, as ações e as palavras dos autores dessas atrocidades que, em regra, se suicidam após concluírem a barbárie.
Tão semelhante quanto o modus operandi, são os perfis e as motivações dos dementes. Ilustres desconhecidos, entorpecidos por seus delírios, deixam rastros de forma proposital, externando o desejo de serem vistos, ouvidos ou decifrados. Via de regra, é exatamente isso que eles querem, sair da vida e entrar para a história, tentando encobrir sua loucura e covardia com uma pose de mártir com fala misteriosa e cheia de enigmas subliminares. Psicólogos e psiquiatras de plantão reforçam esta ideia ocupando os noticiários tentando traduzir a mente desses psicopatas através de fragmentos de seus discursos cujos conteúdos somente evidenciam seu desequilíbrio flagrante. Esforço inútil de explicar o inexplicável e que acaba só dando ibope – póstumo – para o infeliz. O pior, é que muitos outros loucos, vendo toda essa repercussão, podem se sentir encorajados a repetir esta selvageria para, enfim, serem ouvidos e considerados, mesmo que, para isso, tenham que sacrificar suas próprias vidas.
Por isso é que existe um princípio do jornalismo que recomenda não dar destaque aos suicídios, visando evitar o “contágio”, ou seja, noticiar suicídios poderia estimular ou encorajar potenciais suicidas ao ato extremo de dar um fim à sua existência. É óbvio que o fato foi relevante, é notícia, merece manchete de capa, mas, coerente com a postura predominante nos demais casos de suicídio, não deveríamos dar ênfase nem ao nome do suicida, sob pena de encorajar outras ações dessas, contra as quais não há prevenção possível. Podemos nos cuidar e proteger de ações humanas lógicas ou previsíveis, mas não há como nos protegermos de uma loucura. Não há hora nem lugar certo ou errado quando se lida com um maluco. Somos todos vulneráveis!
A maior prova do efeito nocivo da imensa repercussão das tragédias através de notícias, livros, monografias, filmes, debates etc, é que, por não caírem no esquecimento, servem de inspiração para atos análogos como este de Suzano, francamente planejado e executado como o atentado de Columbine nos Estados Unidos. Isso confirma a tendência humana de aprender mais com os exemplos do que com as recomendações. É a vida imitando a vida. São os efeitos colaterais e negativos da globalização.
Vamos, então, chorar, lamentar, nos solidarizar com os enlutados, rezar pelas almas das vítimas, protestar por mais segurança nas escolas etc, mas vamos evitar dar destaque para a imagem, nomes, atos e delírios desses monstros, pois isso só serviria para dar a ideia para outros monstros.

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