ANO: 26 | Nº: 6540

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
22/03/2019 Fernando Risch (Opinião)

Abre o olho, produtor rural

Quando se trata de política, o principal mecanismo do cidadão, sua obrigação ética como democrata, é a fiscalização e cobrança. Sem isso, sem a pressão popular para que as coisas andem no trilho certo, até um governo que sabe o que está fazendo pode enveredar para um caminho que não o do bem comum. Em se tratando de Jair Bolsonaro, da minha parte, duvido muito que ele saiba.

Certo dia, um apoiador de Bolsonaro me disse para eu não torcer contra, porque eu só falava mal do novo governo. Respondi que não falava mal, falava a verdade, pois estava fiscalizando e cobrando. Pensamento positivo, torcer pra dar certo ou errado, nada disso importa e nada disso fará diferença. Um governo precisa saber o passo certo que dará e os interessados, a população, precisa ficar atenta.

Nesta semana, Bolsonaro visitou Donald Trump, num encontro que prometia, dentre outras coisas, o estreitamento da relação entre os países – que sempre foi boa, diga-se – e a ampliação de comércio entre as nações, derrubando barreiras econômicas.

Bolsonaro se largou a entregar a Trump o que quer que fosse: da suspensão de visto turístico para americanos no Brasil até um inconstitucional apoio aos EUA numa intervenção armada na Venezuela. Na parte do agro, Bolsonaro anunciou a importação de 750 mil toneladas de trigo americano (medida que afeta o comércio com a Argentina) e o fim da taxação para importação da carne suína dos Estados Unidos. Mas essas não são nem de perto as notícias economicamente preocupantes ao agronegócio brasileiro.

Tentando ingressar o Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com o apoio americano, Trump exigiu que o Brasil renunciasse ao seu status privilegiado de "Em desenvolvimento" (TED) na Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando que o status prejudica a negociação com os países desenvolvidos. Deslumbrados, Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo acataram.

O chanceler justificou a renúncia dizendo que estava na hora de o Brasil sair desse status de eterno país em desenvolvimento, que, segundo ele, não nos tirou do lugar, e assumirmos de vez uma cadeira entre os protagonistas, com os países desenvolvidos. O problema é que dizer que o Brasil não está mais "em desenvolvimento" não faz com que o País não esteja nesse estágio; assim como dizer que o Brasil está entre os protagonistas econômicos do planeta não de fato faça com que isso seja verdade. Dentre outros sentimentos que se pode extrair dessa vassalagem, parece perfumaria para uma claque que ainda pensa estar no período eleitoral.

Entrar na OCDE não é algo negativo, apesar de afetar a relação com países parceiros do bloco Brics, que não enxergam a ação com bons olhos: Índia, África do Sul e China. E este último, o gigante asiático que está a dominar o mundo, cabe dizer, necessita de muita cautela para não prejudicar ainda mais uma relação já abalada com o Brasil. De uma forma simplória, virar as costas para a China é decretar bancarrota nacional.

Mas nem chegamos no principal, que é o status renunciado na OMC, algo irresponsável e desnecessário. A Coreia do Sul, por exemplo, um país desenvolvido, faz parte da OCDE e ainda mantém seu status de privilégio na OMC. Esse status faz com que esses países tenham mais flexibilidade e prazos para cumprir acordos, tenham medidas para proteger suas economias, tenham assistência técnica para lidar com disputas comerciais e tenham um aumento de oportunidades comerciais frente aos ditos "países de primeiro mundo", aqueles que, agora, como o Brasil, não são privilegiados por estarem em desenvolvimento.

Não apenas negócios futuros, mas acordos já firmados serão afetados. Para exemplificar um deles, do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, de 1947, o GATT 47, no artigo primeiro, terceiro item, do Acordo Internacional sobre Carne Bovina, diz que o acordo visa: "assegurar benefícios adicionais para o comércio internacional de carne bovina e de animais vivos nos países em desenvolvimento, dando a estes maiores possibilidades de participar da expansão do comércio dos referidos produtos, por intermédio das seguintes medidas, inter alia: (a) promoção da estabilidade de preços a longo prazo, no contexto de um mercado mundial em expansão para a carne bovina e animais vivos; e (b) promoção da manutenção e o aperfeiçoamento das receitas dos países em desenvolvimento exportadores de carne bovina e de animais vivos".

Dito e avaliado tudo isso, o que Trump deu em troca a Bolsonaro? Nada. Nem mesmo um aceno positivo para a retomada de importação de carne bovina, suspensa desde a Operação Carne Fraca, em 2017. Ninguém precisa pagar para ver porque está torcendo a favor, com pensamento positivo. Não é assim que uma democracia opera. Democracia é partilha de poder e o poder do povo é a fiscalização e cobrança. Aos produtores rurais, apoiadores ou não de Bolsonaro, abram o olho e cobrem se necessário. Sentimento não gera bom governo; cobrança e bom trabalho, sim.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...