ANO: 25 | Nº: 6381

Marcelo Teixeira

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Advogado e professor universitário - Urcamp
23/03/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Inversões de valores

Não é de hoje que vivenciamos uma Era de transformações tão dinâmica e surpreendente que deixa a nítida sensação de que não está nem próxima do fim. É difícil vislumbrar no horizonte alguma estabilização ou acomodação dos ânimos, para tristeza dos conservadores.
Além disso, são transformações democráticas e generalizadas, ou seja, não poupam ninguém e são percebidas em quase todos os setores, seja na economia, na educação, nas relações sociais, familiares, profissionais etc. Nada nem ninguém escapa!
No vácuo de tantas mudanças, as inversões de valores são inevitáveis. Inversão de valor, por si, não é algo ruim ou negativo, pois muitas vezes ela proporciona uma correção de rumo necessária, uma atualização dos parâmetros, enfim, alterações que já pediam passagem há muito. Todavia, boa parte das inversões provoca um rompimento com o estabelecido, subverte a ordem e, por isso, enfrenta forte resistência e desperta reações nem sempre moderadas, pra dizer o mínimo.
Nosso momento atual é muito rico não só em inversão de valores como, também, no consequente climão de animosidades que se forma, proporcionando, por vezes, um festival de desinteligências. Radicalismos de todos os lados, intolerâncias absurdas, mesmo em temas de pouca relevância.
Uma inversão de valores que se destaca, atualmente, diz respeito à proteção dos animais. Na Índia, a vaca é sagrada, mas no Brasil, do jeito que vai, não haverá animal não sagrado. Cães e gatos lideram o ranking da sacralização animal, mas não é de duvidar que, no futuro, comer um churrasco passe a ser crime. Proteger os animais, ainda que com exagero, não é o mais grave. O mais grave é que paralelamente a todo esse cuidado com os animais vem o descaso com os humanos. Aí está a inversão de valores que preocupa!
Preocupante também foi o primeiro atrito entre o executivo e o legislativo, ocorrido no final desta semana e protagonizado pelo ministro Sérgio Moro e pelo deputado Rodrigo Maia. Preocupado com a não tramitação do seu projeto anticrime, Moro tentou dar uma cutucada na Câmara para acelerar o andamento e esbarrou no Maia, super atarantado com o trâmite urgente da reforma previdenciária e que, por isso, trata todos os demais projetos como de menor urgência e relevância, inclusive o do Moro.
Tudo bem que há razões políticas óbvias para isso, mas quando Maia, visivelmente irritado, defendeu publicamente que a prioridade era a reforma previdenciária, revelou a que ponto a inversão de valores chegou, também, na praça dos três poderes.
Se o Moro, integrante do Poder Executivo, tivesse dito que a prioridade era a reforma previdenciária, até daria para entender, pois o maior interessado em sua aprovação é mesmo o governo. Já o povo, representado pelo Poder Legislativo, obviamente tem mais interesse no projeto anticrime do que na reforma previdenciária, mas Maia não pensa assim. Resumindo, o representante do povo defende os interesses do governo enquanto o representante do governo defende os interesses do povo, quando deveria ser exatamente o contrário. Inversão não só de valores, mas também de atribuições e de competências. A que ponto chegamos?
E mais, qual o problema dos projetos tramitarem simultaneamente num Congresso formado por quase 600 parlamentares que trabalham apenas três dias por semana? É só botar todo mundo a trabalhar todos os dias da semana que desengaveta tudo que é projeto importante para a população.

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