ANO: 25 | Nº: 6335

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
23/03/2019 Airton Gusmão (Opinião)

Não basta se dizer cristão

Estamos a caminho da Páscoa, acolhendo neste tempo quaresmal o convite à conversão pessoal, comunitária, social e também em outras dimensões da existência humana; conversão esta que se traduza em frutos de vida, de esperança, de novas relações, de reconciliação e solidariedade. Todos nós precisamos de conversão, de mudança de rumos e ações.

Neste terceiro domingo da Quaresma somos convidados por Jesus Cristo, também através da parábola da figueira, a nos perguntar sobre a necessidade de uma verdadeira conversão, manifestada pelos frutos: "Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo" (Lc 13,1-9).

Falando em conversão em geral, é importante ter presente dois textos da Igreja: um sobre a Campanha da Fraternidade deste ano e outro sobre a Carta Encíclica do Papa Francisco, sobre o cuidado da casa comum.

O Texto-Base da Campanha da Fraternidade nos diz que "o progresso científico e tecnológico tem mostrado como as escolhas feitas no presente podem influenciar os estilos de vida e, em alguns casos, a própria existência dos cidadãos das futuras gerações. Há a necessidade de construir lideranças que apontem caminhos, procurando dar respostas às necessidades das gerações atuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras" (nº 242).

O Papa Francisco na Carta encíclica "Laudato Si", sobre o cuidado da casa comum, nos diz o seguinte: "Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. Falta para muitos cristãos que não se preocupam com o meio ambiente ou que não se decidem a mudar os seus hábitos, uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus" (nº 119 e 217).

A conversão é um longo processo. Não é apenas uma penitência externa ou um simples arrependimento de pecados; é um convite à mudança profunda de vida, de mentalidade, de atitudes. É necessário mudar segundo o plano de Deus que nos criou para relações que humanizam, que nos fazem de fato viver como irmãos. É um voltar-se para Deus de todo o coração.

Não tem como ficar neutro diante de uma parábola; ela exige uma resposta de quem a lê ou a escuta. Há um propósito específico para a figueira, assim como há também para cada diferente árvore frutífera. Não bastava fazer sombra e abrigar os pássaros. Aquilo que era específico, próprio de sua natureza, produzir figos, não estava acontecendo.

Ouvimos ainda nesta parábola da figueira: "Senhor, deixa a figueira ainda neste ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás". Jesus, após semear sua Palavra em nosso coração e vida, após ter adubado cuidadosamente as raízes da árvore que somos, ele tem todo o direito de nos cobrar os frutos de que somos capazes de produzir.

Diante da consciência e da vida cristã, olhando para o mundo, a sociedade, com seus dramas, injustiças, maldades e tantos desafios que nos questionam, não podemos ficar insensíveis ou acomodados. Uma vida sem frutos para Deus é uma vida que perde o próprio sentido. O tempo que temos neste mundo é o tempo que Deus nos dá. É um tempo de conversão e de apresentar os frutos que Ele espera de todos nós.

Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

 

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