ANO: 25 | Nº: 6282

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
28/03/2019 João L. Roschildt (Opinião)

A lição de Tite

As marcas mais explícitas do intelectualismo podem ser vistas na arrogância e no descolamento da realidade. Não existe área da vida que está imune a isso. Petulantes por natureza, aqueles que se travestem de intelectuais ou que têm o afã de demonstrar conhecimento público, julgam pairar acima das nuvens da sabedoria. Por outro lado, distantes do cotidiano, ignoram que a racionalidade do senso comum possui importante papel na complexa busca da verdade.

Todavia, tal crítica não significa aversão intelectiva ao que é denso e refinado. Não se está pregando a abolição do intelectual. O que se apontou é que a transmutação dessa figura em um ser que come mortadela e arrota peru, ou que vende gato por lebre, auxilia profundamente no processo de degeneração social da contemporaneidade.

Após o empate entre Brasil e Panamá, no último sábado, o técnico da seleção brasileira de futebol, Tite, concedeu coletiva de imprensa para tentar explicar o péssimo resultado obtido. Como de praxe, o treinador utilizou de farto vocabulário que une abstrações extraídas de um futebol de prancheta, com a criatividade linguística típica de quem deseja marcar época. Falou em “extremos desequilibrantes”, “lastro físico”, “performar com resultado”, “jogo interno”, “jogo externo” e “último terço”. Tudo isso fez parte da bomba de gás lacrimogênio que o técnico lançou para dispersar a turba de críticas que sucederiam àquele resultado constrangedor. Afinal, não é preciso ser um exímio conhecedor de futebol para saber que o quão fraco é o Panamá.

Tite utilizou-se de termos que não apontam maior conhecimento do jogo, não resolvem o problema do péssimo futebol desempenhado e que desconsideram a simplicidade de comunicação que abunda nessa prática esportiva. Para completar, o volante (não seria esse um termo muito antiquado?) Casemiro disse que este é um momento de adaptação em que os jogadores “estão entendendo a filosofia de trabalho do mister”. O mister em questão é o técnico Tite. Novos tempos de luxúria linguística.

Nada contra o uso de termos e expressões que auxiliam na compreensão de problemas reais. E é absolutamente saudável o aprimoramento por meio de estudos, o que traz, muitas vezes, maior charme no uso de palavras. Mas, da mesma forma que o ambiente acadêmico é “surpreendido” quando descobre que suas ideologias progressistas e coletivistas pregadas incessantemente como ativismo político são rechaçadas ou tomadas como irrelevantes pela cultura do bom senso comum presente na sociedade, a fala de Tite mostrou-se inútil para dizer o óbvio.

Um dos fatos mais inequívocos que o contexto dos pensamentos e práticas humanas nos mostra é de que a erudição não depende de perfumarias. Maquiar alguém feio não o torna bonito. Belas palavras e ideias mirabolantes repletas de boas intenções não mudam a realidade das coisas. Passar o verniz não elimina a ranhura. O academicismo de Tite, filhote de uma intelectualidade universitária pedante, que julga ser possível estabelecer um design social à sua imagem e semelhança, não passa de um reflexo dessa distância que os “sábios” mantém mantêm dos “ignorantes”.

Ao invés de se jogar bonito, fala-se bonito. Ao invés de compreender a tradição, luta-se pela sua destruição. Ao invés de boas práticas, rebuscadas abstrações. Ao invés da realidade, utopias.

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